Do jornalista Paulo Motoryn, na neswletter Noites Húngaras:
Flávio Bolsonaro me processou por causa de uma pergunta. Em uma edição do programa ICL Eleições, veiculado no canal do YouTube do ICL Notícias, no último dia 28 de agosto, questionei: “Flávio Bolsonaro deixaria suas filhas sozinhas com seu candidato a vice?”.
A pergunta fazia referência às acusações envolvendo Alfredo Gaspar, que ele nega. No dia 2 de setembro, Flávio e seu vice acionaram o Tribunal Superior Eleitoral contra mim e contra o ICL. O processo sustenta que houve divulgação eleitoral irregular.
É evidente que a pergunta incomoda. Mas é difícil olhar para esse processo sem considerar também o histórico da minha cobertura. No Intercept, fui um dos autores de uma investigação que revelou informações sobre Flávio Bolsonaro e sua relação com Daniel Vorcaro, então dono do Banco Master.
Hoje, como comentarista do ICL Notícias e editor da newsletter Noites Húngaras, continuo investigando personagens e relações do entorno do candidato. O ICL Notícias, por sua vez, tem mantido uma cobertura intensamente crítica e investigativa sobre Flávio Bolsonaro. É nesse contexto que recebo uma ação judicial movida pelo candidato à Presidência contra mim e contra o veículo em que trabalho.
Não posso afirmar qual foi a motivação subjetiva de Flávio para recorrer à Justiça além do que está escrito no processo. Posso, porém, registrar o efeito concreto: um candidato à Presidência está recorrendo ao Judiciário contra um jornalista e um veículo por causa de conteúdo jornalístico crítico.
Há ainda uma coincidência que considero especialmente relevante. O processo foi inicialmente distribuído a Kassio Nunes Marques, presidente do TSE. Nesta mesma semana, publiquei uma reportagem mostrando que o chefe jurídico da campanha de Flávio, Tracy Reinaldet, já dividiu defesas com Karine Nunes Marques, irmã do ministro, e com Otto Medeiros, advogado que Nunes Marques reconhece como amigo e cuja atuação já o levou a se declarar impedido em processos.
Nunes Marques, porém, não ficou com o processo. A própria defesa de Flávio pediu que o caso fosse analisado por André Mendonça, alegando que ele poderia estar prevento por outro processo relacionado a publicação com o mesmo “núcleo fático”. Nunes Marques encaminhou então os autos ao gabinete do ministro para que a eventual prevenção fosse avaliada.
Mendonça também é personagem de uma investigação que publiquei na newsletter Noites Húngaras: revelei informações sobre um encontro que ele manteve com Daniel Vorcaro em março de 2025. A existência desse histórico jornalístico não demonstra, evidentemente, parcialidade de nenhum ministro. Mas torna ainda mais importante que qualquer decisão seja fundamentada com transparência e submetida ao escrutínio público.
O episódio também merece ser observado diante do discurso recorrente de setores da direita e da extrema direita em defesa da liberdade de expressão, especialmente quando seus próprios integrantes são alvos de decisões judiciais. Liberdade de expressão e liberdade de imprensa, porém, não podem valer apenas para discursos convenientes a determinado campo político. O teste mais importante desses princípios aparece justamente diante de perguntas, críticas e investigações que incomodam quem exerce ou pretende exercer o poder.
É por isso que considero este processo maior do que a pergunta que lhe deu origem. Flávio Bolsonaro disputa a Presidência, e a maneira como candidatos se relacionam com jornalistas, instituições e críticas públicas é informação relevante para o eleitor.
Quanto a mim, o processo não muda o essencial. Continuarei fazendo perguntas incômodas, investigando relações de poder e publicando o que for de interesse público, sempre sujeito às mesmas obrigações de qualquer jornalista: apurar, documentar, ouvir os envolvidos e corrigir quando necessário.


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