Por Roberto Maciel, jornalista:
Ciro Gomes parece tentar dar a si o caráter trágico de alguns personagens do genial dramaturgo, cronista e jornalista Nelson Rodrigues (1912-80). Atormentados por desilusões, desprezados em sentimentos não correspondidos, alguns de trejeitos e comportamentos questionáveis, tipos vários desfilam na obra do Anjo Pornográfico numa procissão tão humana quanto constrangedora.
A carta aberta que Ciro despejou nas redes sociais, mais uma vez mostrando que rumina ódio e rancor em vez de se preparar para novos tempos, é um documento rico para comprovar a rispidez com que abandonou o progressismo – o qual tentou ter como marca reconhecida pela sociedade – para correr para os braços do bolsonarismo.
“Não cumprimentei o candidato vitorioso”, escreveu, se referindo ao governador Elmano de Freitas (PT). E segue: “Ele não ganhou, ele e sua organização criminosa tomaram as eleições! Já ganhei e perdi eleições, nunca repudiei o resultado das urnas, mas meu sentimento, pela primeira vez na vida, é de que fomos roubados”.
O texto é ruim, ora confuso, ora mal-elaborado, mas precisamos prosseguir: “(…) Consultado pelo jurídico de nossa campanha, concordei que fosse feita uma reclamação à justiça – digo logo que não acredito nela neste país apodrecido – mas vale documentar que sigo lutando!”, registrou, abrindo mão de vírgulas e outros sinais, num sintoma de que escreve mais com o fígado do que com o cérebro.
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O que o enfant terrible da terceira idade sobral-pindamonhangabense aponta é a tentativa de alongar no Judiciário algo que está encerrado desde domingo passado – a eleição que perdeu olimpicamente.
Aparenta não querer assumir os próprios erros.
O queixume, no entanto, não é nem contra o adversário, a quem insiste acusar que “roubou”, mas contra a Justiça sob a toga do ministro do STF Dias Toffoli que, numa decisão comezinha, restaurou para os opositores de Ciro e do bolsonarismo tempo de exibição em rádio e TV que havia sido negado por deliberação anterior.
Isso não é ser roubado, mas ter as regras aplicadas. Será essa, possivelmente, a resposta que os advogados de Ciro Gomes receberão se realmente formalizarem reclamação.
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Voltando a Nelson Rodrigues (foto acima), não será arriscado nem descabido comparar o comportamento de Zózimo (em “Engraçadinha”) ao do tetra-fracassado político cearense – derrotado quatro vezes para a Presidência da República e agora para o Governo do Ceará. Condescendente com a virulência política dos novos parceiros, submisso a estratégias grosseiras e desastrosas e apaixonado pelo poder que nunca alcança, Ciro Gomes certamente se identificaria com personagens assim.
Não com Palhares, o “honesto” mas de índole retorcida, “pulha torpe e fascinante”.
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Mas Zózimo, sim. A quem todo castigo é pouco.


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