Do site Brasil 247:
A coligação Brasil Pronto pra Mais, que apoia a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), apresentou denúncia à Procuradoria-Geral Eleitoral sobre a oferta de criptomoedas em troca da divulgação de conteúdos favoráveis ao candidato à presidência da República Flávio Bolsonaro (PL). O grupo também acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra um vídeo publicado pelo empresário Pablo Marçal que, segundo a representação, manipula uma conversa telefônica de 2016 para atribuir ao presidente ofensas contra evangélicos.
De acordo com informações divulgadas pela equipe do presidente, a coligação questiona a utilização de recompensas financeiras para estimular propaganda política nas redes sociais e pede providências contra conteúdos que, conforme a denúncia, apresentam declarações fora de contexto para atingir a imagem do presidente durante a campanha do segundo turno, marcado para 25 de outubro.
Projeto oferece criptomoedas por divulgação de conteúdo eleitoral
O primeiro caso envolve o Brasil 22 Token (B22), ativo virtual lançado nesta semana e associado à campanha de Flávio Bolsonaro. A iniciativa oferece 30 mil unidades da criptomoeda a cada uma das primeiras mil pessoas que compartilharem conteúdos do projeto no X, Instagram ou TikTok.
Os organizadores estabeleceram o prazo de 26 de outubro para as inscrições, um dia depois da votação do segundo turno. A página de divulgação reúne orientações sobre a distribuição dos ativos e mensagens que relacionam a participação à promoção da candidatura do senador.
O projeto utiliza o slogan “Compre. Publique. Inspire. Ganhe B22” e, segundo a denúncia, promete recompensar usuários que incentivarem outras pessoas a votar no número 22.
A campanha de Lula sustenta que esse mecanismo pode caracterizar uma forma de remuneração por propaganda eleitoral na internet, o que exige investigação sobre a origem dos recursos, a identificação dos responsáveis e a finalidade das operações.
Conforme a documentação apresentada à Procuradoria-Geral Eleitoral, o domínio brasil22token.com começou a funcionar em 6 de outubro. O registro ocorreu nos Estados Unidos, com proteção dos dados de identificação do titular por um serviço de privacidade.
A coligação aponta uma divergência entre as informações do site e as mensagens utilizadas para promover o ativo. Embora a página afirme que a distribuição das criptomoedas não depende de preferência política, os conteúdos divulgados pelos organizadores associam as recompensas ao incentivo ao voto em Flávio Bolsonaro.
Reportagem da Folha de S.Paulo também identificou a distribuição de tokens a usuários que compartilham publicações favoráveis ao candidato. Especialistas ouvidos pelo jornal levantaram questionamentos sobre a legalidade da iniciativa diante das normas que regulam o financiamento e a propaganda eleitoral.
Crianças de Uganda participaram da divulgação do token
A denúncia também aponta o envolvimento do HypersKids, grupo infantil de dança de Uganda que mantém um perfil no Instagram com aproximadamente 12,9 milhões de seguidores.
Segundo os documentos reunidos pela coligação, uma carteira digital financiada por meio da corretora Binance criou o B22 e enviou 120 milhões de unidades do ativo para outra carteira, apresentada como pertencente ao grupo africano.
Onze minutos depois da transferência, o perfil do HypersKids publicou um vídeo no qual crianças vestem camisetas com a identificação B22 e pedem votos para Flávio Bolsonaro.
A legenda da publicação informa o recebimento das criptomoedas e incentiva outras pessoas a participar da iniciativa mediante a divulgação de mensagens eleitorais.
De acordo com os valores apresentados pela coligação, os 120 milhões de tokens representavam aproximadamente R$ 104,5 mil nesta quinta-feira. O projeto também teria registrado movimentação de cerca de R$ 1,06 milhão em um período de 24 horas.
A imprensa identificou Kevim Flores como possível idealizador da iniciativa. Segundo a denúncia, ele teria anunciado a perspectiva de valorização superior a 3.000% do ativo até a eleição presidencial.
O projeto também utiliza o perfil @Brasil22Token, identificado como “Brasil Bolsonaro”, para divulgar informações sobre a criptomoeda.
A campanha de Lula pede que as autoridades esclareçam a participação do grupo estrangeiro, a existência de eventuais pagamentos e as circunstâncias em que os organizadores utilizaram imagens de crianças na propaganda dirigida ao eleitorado brasileiro.
Coligação pede investigação sobre possíveis crimes eleitorais
Na notícia de fato registrada sob o número PGR-00461288/2026, a coligação solicita que a Procuradoria-Geral Eleitoral investigue a origem dos recursos e identifique as pessoas que administram o projeto.
A representação menciona a possibilidade de infração ao artigo 334 do Código Eleitoral, que trata do uso de organização comercial para propaganda ou aliciamento de eleitores.
Os advogados também pedem que as autoridades apurem eventual compra de votos, caso encontrem evidências de que os organizadores ofereceram vantagens econômicas para obter o voto dos participantes.
A coligação solicita a preservação dos registros digitais relacionados às operações e às publicações no Instagram, X, Telegram e Binance.
O documento também propõe cooperação jurídica com os Estados Unidos para identificar os responsáveis pelo domínio utilizado na divulgação do B22 e obter informações que permitam rastrear as transações.
Além da notícia de fato, a campanha apresentou uma representação por propaganda eleitoral paga na internet e uma ação de investigação judicial eleitoral, com alegações de abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação.
As iniciativas incluem os possíveis beneficiários eleitorais e Kevim Flores. A coligação também solicita que órgãos de proteção à infância e à adolescência examinem a utilização da imagem dos integrantes do HypersKids.
As suspeitas ainda dependem de investigação. A participação de perfis na divulgação do projeto, por si só, não comprova a existência de compra de votos ou a responsabilidade direta dos candidatos pelo lançamento da criptomoeda.
Campanha de Lula acusa Pablo Marçal de manipular conversa de 2016
A segunda frente judicial tem como alvo o empresário Pablo Marçal, que anunciou em 29 de setembro sua participação na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro.
A coligação apresentou ao TSE uma representação para retirar do Instagram um vídeo de 57 segundos que utiliza trechos de uma conversa telefônica entre Lula e Eduardo Paes, registrada em março de 2016.
Segundo a denúncia, o material modifica a ordem das declarações para transmitir a impressão de que Lula teria insultado os evangélicos.
Na gravação, Paes menciona que integrantes do Ministério Público são religiosos. A edição insere, na sequência, uma fala ofensiva de Lula retirada de outro momento do diálogo, acompanhada da frase “Ele não gosta de evangélicos”.
A coligação afirma que o presidente não dirigiu a declaração aos fiéis. Na conversa original, Lula criticava integrantes do Ministério Público que atuavam nas investigações contra ele.
Quando Paes mencionou que os procuradores eram “crentes”, Lula respondeu: “É uma coisa absurda”.
De acordo com a campanha, a montagem altera o sentido da conversa ao deslocar uma ofensa de outro trecho e apresentá-la como reação à referência religiosa.
Os advogados argumentam que o procedimento ultrapassa os limites da crítica política porque modifica o contexto das declarações e atribui ao presidente uma posição que ele não expressou naquele momento.
Vídeo também tenta associar presidente a críticas aos pobres
A representação aponta outra alteração no mesmo conteúdo. A publicação utiliza comentários de Eduardo Paes sobre o estilo de vida de Lula e inclui a mensagem “E TAMBÉM NÃO GOSTA DE POBRE”.
Segundo a coligação, a montagem procura transformar declarações de Paes em uma suposta manifestação do presidente contra a população de baixa renda.
Os advogados afirmam que a edição combina falas de diferentes momentos, fotografias, legendas e referências a veículos de comunicação para apresentar a narrativa como se tivesse respaldo jornalístico.
No momento em que a campanha reuniu as provas, a publicação acumulava aproximadamente 116,9 mil curtidas e 4,2 mil comentários.
A coligação sustenta que o alcance do conteúdo amplia os efeitos da suposta manipulação, especialmente durante o segundo turno, quando os candidatos disputam o apoio de segmentos específicos do eleitorado.
Marçal enfrenta quarta representação em pouco mais de uma semana
A nova ação amplia a sequência de disputas judiciais entre a campanha de Lula e Pablo Marçal.
Segundo o levantamento apresentado pela coligação, esta é a quarta representação contra o empresário em pouco mais de uma semana por publicações que a campanha considera manipuladas.
Em 3 de outubro, o TSE determinou a retirada de vídeos que retratavam Lula como adversário dos cristãos.
Outra representação contesta uma edição que atribui conotação sexual a um discurso do presidente.
A terceira envolve a divulgação de imagens que sugerem que Lula teria amassado e jogado a bandeira brasileira no chão. Nesse caso, a Justiça Eleitoral também concedeu parcialmente uma medida de urgência para retirar conteúdos que apresentavam informações falsas sobre o episódio.
Na ação mais recente, que ficou sob a relatoria da ministra Estela Aranha, os advogados pedem que o TSE determine a exclusão imediata do vídeo sobre os evangélicos.
A campanha também solicita que o tribunal impeça novas publicações do mesmo material e aplique a multa máxima prevista na legislação eleitoral, levando em consideração a repetição das condutas atribuídas ao empresário.
Ações buscam apurar propaganda remunerada e desinformação
As duas iniciativas da coligação tratam de possíveis irregularidades distintas na campanha presidencial.
No caso do B22, a investigação deverá esclarecer se os organizadores utilizaram ativos virtuais como forma de pagamento por propaganda eleitoral e se houve oferta de vantagens para influenciar votos.
Em relação ao vídeo de Pablo Marçal, o TSE deverá avaliar os argumentos sobre a alteração da sequência das declarações e decidir se o conteúdo viola as regras eleitorais que disciplinam a divulgação de informações falsas ou descontextualizadas.
A Procuradoria-Geral Eleitoral também poderá examinar os pedidos de preservação de provas digitais, identificação dos responsáveis pelo projeto de criptomoedas e eventual cooperação internacional.
As medidas chegam à Justiça Eleitoral a pouco mais de duas semanas do segundo turno, previsto para 25 de outubro. Até o momento, as novas denúncias ainda aguardam análise das autoridades competentes, que deverão determinar a existência de irregularidades e a eventual responsabilidade dos envolvidos.


Fique por dentro do mundo financeiro das notícias e opiniões que rolam no Ceará, Nordeste e Brasil.