Por Roberto Maciel, jornalista:
Nossa Senhora Aparecida é um marco de fé cristã. Representa a mãe de Jesus vestida de esperança. A estatueta negra encontrada submersa em 1717, no Rio Paraíba do Sul, em São Paulo, está presente na História do País e transcende crenças. Representa as mães, todas elas.
Os pescadores que 309 anos atrás a acharam – Domingos Garcia, João Alves e Felipe Pedroso – nem suspeitavam, mas estavam também diante de um documento cultural de valor inestimável. Não se trata meramente de um objeto de arte, uma antiguidade religiosa rara, mas de um alicerce forte da devoção, do respeito e do amor que pessoas que professam a mesma fé têm pelo divino.
Imagine uma menina por volta de 17 anos de idade que, grávida, 2.026 anos atrás tem de fugir com o marido para não ser morta nem permitir que o bebê que teria fosse assassinado pelos poderosos da época. Imagine esse garota, com dores e medo, obrigada a parir num estábulo e abrigando o filho no lugar em que os bichos comiam, sendo a respiração daqueles animais a fonte de calor para a criança. Imagine, por fim, anos depois, já mulher, ela tendo de ver o filho ser torturado e pregado numa cruz, morto e humilhado. É justo que seja maltratada por fanáticos nos dias de hoje?

É por isso, certamente, que acendeu-se em corações e mentes católicas a apreensão de que Flávio Bolsonaro, político envolvido com baixíssimos e sujos expedientes – milícias, rachadinhas, propinas e fraudes fiscais, por exemplo – tramasse com pastores evangélicos de condutas questionáveis um estratagema que retirasse de Nossa Senhora a condição de Padroeira do Brasil.
Seria um ardil, um movimento não para valorizar essa ou aquela religião, mas uma insidiosa tentativa de desvalorizar outra, a católica. E pelos mais rasteiros interesses no poder político.
*** ***
Hoje é o Dia em que se celebra Nossa Senhora da Conceição Aparecida – a denominação correta da Santa de Aparecida. É quando convergem para a intercessora da humanidade diante de Deus as orações e os pedidos dos fiéis. E também os desejos de paz, de harmonia, de honestidade, responsabilidade, compaixão, igualdade e prosperidade que muitos encaminham ao sagrado – não apenas para alguns, mas para todos, numa aproximação entre o democrático e o espiritual. É por isso que se acredita que Nossa Senhora Aparecida, mãe de Jesus, é quem une a todos, católicos ou não, na expectativa de que homens e mulheres possam ser melhores do que são.
Nossa Senhora Aparecida já foi brutalmente atacada. Já recebeu pontapés numa transmissão televisiva, já foi chamada de “meretriz” e de “satanás” em livro, foi também xingada em incontáveis preleções em púlpitos ou palcos. Foi ameaçada de impeachment – talvez o único caso prometido de deposição de padroeira que a humanidade conheça. Nunca deixou, porém, de acolher com piedade e compreensão súplicas de quem nela confia.
Meu pai, Fernando, era devoto da Senhora de Aparecida, assim como dedicava o máximo da fé que tinha a Nossa Senhora de Fátima e a Nossa Senhora de Assunção – por sinal, padroeira de Fortaleza. Respeitava-a como respeitava Jesus, Deus-Pai e o Espírito Santo. Meu pai tinha amor verdadeiro por aquela mãe que nunca deixou de ouvi-lo, que cuidou dele e o protegeu por mais de 90 anos, assim como a minha mãe, Benedita, os filhos também.
*** ***
Não é preciso, enfim, ser católico para crer em Nossa Senhora Aparecida. Nem ser caipira, Pirapora, sei lá o quê. Basta ter esperança, respeito, justiça, gratidão e resiliência.
A Santa cuida do que mais for preciso.


Fique por dentro do mundo financeiro das notícias e opiniões que rolam no Ceará, Nordeste e Brasil.