Hoje é dia de Samba, por Ronaldo Caminha: “Algumas considerações sobre o gênio Noel Rosa”

Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:

Falar que o compositor Noel Rosa era um gênio já se torna desnecessário. A obra que deixou fala por si. Sempre muito original, Noel explorou uma infinidade de temas em vários estilos musicais – samba, samba-canção, choro, embolada, valsa, marcha de carnaval e até foxtrote – ora compondo letras e melodias sozinho, ou com parceiros das mais variadas tendências artísticas.

Nascido no Bairro de Vila Isabel, Rio de Janeiro, em 11 de dezembro de 1910 – pertinho do Natal, portanto -,, Noel veio ao mundo depois de um parto muito difícil, a fórceps, que lhe custou uma fratura no maxilar, deformando muito o rosto. A sequela o acompanhou em toda a vida mas, aida assim, não o impediu de ser uma criança muito descontraída e alegre e um adulto comunicativo, querido por todos que dele se aproximavam.

Sua inspiração era a vida cotidiana da cidade do Rio de Janeiro, a boêmia, os amores, desamores, os tipos humanos que habitavam seu dia a dia; tudo era matéria-prima do processo produtivo, ora lapidada com lirismo apurado, ora com um senso crítico sutil e bem humorado e, ainda, misturando tudo e colocando pitadas de gracejos nos seus sofrimentos e desilusões amorosas.

Sempre achei uma grande semelhança estética entre as obras do Noel e a do Charles Chaplin, o grande ator, comediante e diretor cinematográfico e roteirista britânico, pela mistura bem dosada de lirismo, melancolia, humor e crítica social que faziam em suas composições.

Na música “João Ninguém”, em parceria com Vadico, vejo uma forte essência chapliniana na mensagem:

“João Ninguém que não é velho nem moço,

Come bastante no almoço,

Pra se esquecer no jantar,

Num vão de escada fez a sua moradia,

Sem prensar na gritaria

Que vem do primeiro andar…”

 

“João Ninguém não trabalha um só minuto,

Mas joga sem ter vintém,

E vive a fumar charuto…”

 

“João Ninguém não tem ideal na vida,

Além de casa e comida,

Tem seus amores também,

E muita gente que ostenta luxo e vaidade,

Não goza a felicidade que goza João Ninguém.”

 

*** ***

Já em “Três Apitos”, Noel exprime sua aflição e ciúmes da mulher amada, que trabalhava numa fábrica de tecidos:

“Você que atende ao apito,

De uma chaminé de barro,

Por quê não atende ao grito,

Tão aflito da buzina do meu carro…?”

 

“Nos meus olhos você vê,

Que eu sofro cruelmente,

Com ciúmes do gerente impertinente,

Que dá ordens a você…”

*** ***

Noutro samba – “Último Desejo” – ele se desmancha em poesia:

“Perto de você me calo,

Tudo penso, nada falo,

Tenho medo de chorar…”

O clipe abaixo é um excerto do filme “Noel, Poeta da Vila”, no qual o compositor é vivido pelo ator Rafael Raposo e a namorada dele, Juraci Correia de Morais, por Camila Pitanga. A música é interpretada por Wilson das Neves.

*** ***

Como crítico social, Noel Rosa fez “Onde Está a Honestidade”, com o prazo de validade indeterminado, muito oportuno, inclusive, para o momento atual brasileiro:

“Você tem palacete reluzente,

Tem joias e criados à vontade,

Sem ter nenhuma herança de parentes,

Só anda de automóvel na cidade,

E o povo já pergunta com maldade,

Onde está a honestidade? ´

Onde está a honestidade…?”

*** ***

De repente surge no meio musical carioca, Wilson Batista, compositor cheio de malícia e malandragem, se vangloriando da condição de malandro e vadio:

“Meu chapéu de lado,

Tamanco arrastando,

Lenço no pescoço,

Navalha no bolso,

Eu passo gingando,

Provoco desafio,

Eu tenho orgulho,

De ser tão vadio…”

(Trecho da música “Lenço no Pescoço”)

 

Noel “queimou ruim” com tamanho atrevimento do, ainda desconhecido sambista, e tentou um nocaute no primeiro round:

“Deixa de arrastar o teu tamanco,

Pois tamanco nunca foi sandália,

Tira do pescoço o lenço branco,

Compra sapato e gravata,

Joga fora essa navalha,

Que te atrapalha…”

 

“Malandro é palavra derrotista,

Que só serve prá tirar,

Todo o valor do sambista,

Proponho ao povo civilizado,

Não te chamar de malandro,

E sim de rapaz folgado…”

(Trecho da música “Rapaz Folgado”, aqui com o espetacular Aracy de Almeida)

 

Mas o malandro Wilson Batista era esperto e bom de briga. Não engoliu a resposta calado. E revidou à altura:

“Você que é mocinho da Vila
Fala muito em violão,

Barracão e outros fricotes mais,
Se não quiser perder o nome,
Cuide do seu microfone,

E deixe quem é malandro em paz.”

(Mocinho da Vila, aqui cantada por Jorge Veiga)

*** ***

Foi uma briga longa, entre 1933 e 1936, que renderia muitas  páginas, um verdadeiro duelo de genialidades de ambos os lados; vale a pena conhecer a fundo os detalhes  desse “tiroteio” em que a munição era samba – há muita literatura sobre isso, assim muitas fontes confiáveis na Internet. Não houve vencedores, ninguém se feriu, ninguém morreu; e os dois “inimigos” assinaram um “cessar fogo” se tornando parceiros na música “Deixa de Ser Convencida”, com letra de Noel, que na verdade, era uma melodia que Wilson Batista já tinha feito com o nome de “Terra de Cego”, que serviria para insultar o Poeta da Vila.

Na verdade, se houve um vencedor, foi a cultura musical brasileira, incrementada por criações de rara originalidade e genialidade dos dois compositores que, de forma muito criativa, trocaram farpas numa disputa de quem era o melhor. No final, num desfecho emocionante, propõem a si a paz e selam uma parceria musical, simbolizando um aperto de mão.

Seus parceiros tanto podiam ser um “barra pesada” do subúrbio do Estácio de Sá – Ismael Sila, Nilton Bastos, Brancura, Baiaco, Armando Marçal e Alcebíades Barcelos – ou do Morro de Mangueira, como o pacato e gente boa Angenor de Oliveira (Cartola). Noel também poderia sentar à mesa do Café Nice e brindar com uma cerveja Cascatinha ao lado de Ary Barroso (pianista e arranjador), de Orestes Barbosa (poeta e jornalista) e do pianista paulistano de formação clássica Osvaldo Gogliano (Vadico). Firmou parcerias memoráveis com todos eles, como a história conta.

Noel circulava com muita desenvoltura nos dois “mundos”. Seu talento criativo não sofria intercorrências ambientais, sociais ou raciais; tudo dava samba pelos mesmos motivos, o resto era só um mero detalhe.

*** ***

Pena que Noel viveu muito pouco. Morreu em 1937, aos 26 anos de idade, deixando uma obra vasta e consistente que ainda hoje é revisitada pelas novas gerações de compositores e cantores.  Poderia ter sido protagonista dos movimentos musicais que se seguiram depois, principalmente nos anos 1960, em que a música brasileira efervescia e atravessava fronteiras antes intransponíveis, com o aparecimento de grandes compositores, músicos e cantores que tornaram nosso cancioneiro mais vistoso e moderno, melódica e poeticamente.

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