“Nós contra eles” não é reprovável, mas reflexo da resistência e da luta por sobrevivência política; e também pode ser lido como “eles contra nós”

Por Roberto Maciel, jornalista:

Vez por outra sou atropelado por uma jamanta que tenta desclassificar as causas políticas progressistas: “Pra vocês, da esquerda, é ‘nós contra eles’!”, rosnam esses que nos abordam. Já me senti até meio sem jeito de responder, admito – afinal, coloca-se um bloqueio entre formas de pensar distintas, como se uma opção política à esquerda tentasse eliminar a outra à direita.

Essa é uma lorota que escuto desde muito tempo atrás. Creio que foi criada pelos tucanos, que em geral eram divididos em duas categorias: intelectuais e acadêmicos e carregadores de malas – e as próprias malas, acrescentando aqui um grupo extra. Procura-se, assim, atribuir a outros males ou incompetências de si próprios.

Recuemos para os anos 1960, 1970 e 1980 em busca de esclarecer isso.

Em 1964, quando uma criminosa organização se estabeleceu no poder constituído brasileiro, o “nós contra eles” era a representação autêntica das lutas pela sobrevivência física e mental e pela restauração da Democracia. Era a reação popular contra o golpe de bandoleiros que assaltaram o País.

A organização de movimentos sociais, compreendidos como alicerces para a resistência cidadã, ganhou mais força logo em seguida, numa etapa devida e indispensável: o “nós contra eles” ganhava espaços nos sindicatos urbanos e rurais, nas igrejas, nos meios culturais.

Após isso, as grande greves de trabalhadores acrescentaram mais vigor às causas contra a ditadura. O “nós contra eles” enfrentava, então, polícias e outros aparelhos repressivos na forma de multidões.


Diferentemente do que se tenta impor, a ideia do “nós contra eles” não é ilegítima, não é ilegal, não separa a sociedade.

Ser “nós contra eles” é estar, de um lado, contra o terrorismo de estado, em oposição à violência contra as mulheres, a favor do pleno emprego e contra a exploração de trabalhadores, a favor da inclusão social de jovens e adultos, da educação para todos, do respeito mútuo. É respeitar credos e símbolos religiosos.

Ser “nós contra eles” é estarem os cidadãos contra as milícias, contra vigarices como as do banco Master, contra o genocídio, contra quem ataca direitos sociais.


Não duvide: hoje é mais um dia de “nós contra eles”, assim, com orgulho e responsabilidade.

E lembre: quem exige que seu pensamento se subordine ao de elites que exploram, ruminam rancores e impõem tragédias quer que o nosso “nós” se anule perante o que “eles” determinam.

Seja mais nós e menos eles.

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