Hoje é dia de artes: “Músicas, filmes e teatro”

Por Ronaldo Caminha, economista , músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:

Há canções que possuem uma riqueza tão grande de detalhes – na letra, na melodia e ou nos arranjos orquestrais – que passam para o ouvinte uma sensação como a de quem está estivesse num cinema ou assistindo a uma encenação teatral.

Em 1967, o compositor Gilberto Gil escreveu a música “Domingo no Parque”, que conta a história de um triângulo amoroso vivenciado por dois amigos e uma mulher, desfechando-se num crime passional.

A ideia da criação dessa canção, conforme depoimento do próprio autor, partiu da visão de uma obra de arte, que o compositor conhecera, retratando um parque de diversões, desses que se instalam geralmente nas comunidades do interior ou nos subúrbios das grandes cidades, levando entretenimento às pessoas do lugar, com roda gigante, carrosséis e todos aqueles equipamentos destinados à diversão.

Os personagens do drama eram pessoas simples – José um feirante, João um trabalhador da construção e Juliana, a mulher que despertara a paixão dos dois amigos.

A introdução da música sugere um ambiente de alegria, com vozes de muitas crianças em algazarra, gritos animados e os detalhes sonoros produzidos no arranjo orquestral do maestro Rogério Duprat, com a participação da iniciante banda roqueira “Os Mutantes”, composta pelos irmãos Sérgio e Arnaldo Baptista e a cantora Rita Lee.

“O rei da brincadeira, eh José,
O rei da confusão, eh João,
Um trabalhava na feira, eh José,
Outro na construção, eh João…”

A história se desenrola recheada de imagens poéticas e metáforas – rosa, espinho e sorvete de morango – antecipando a cena do momento do flagrante, em que José avista sua amada Juliana, girando numa roda gigante ao lado do amigo João. A rosa representando o amor, o espinho ferindo e o sorvete gelando o coração de José, diante da cena surpreendente; uma faca surge de repente desferindo os golpes fatais, dois corpos no chão, e o sangue na mão de José.

A emoção do momento é potencializada pelos detalhes sonoros da orquestra, dando a ideia de pânico e tristeza com o desfecho trágico, em contraste com a alegria que o parque proporciona nas pessoas.

“Foi no parque que ele avistou Juliana,
Foi que ele viu,
Juliana na roda com João,
Uma rosa e um sorvete na mão,
Juliana seu sonho, uma ilusão,
Juliana e o amigo João…
O espinho da rosa feriu Zé,
E o sorvete gelou seu coração…”

O arranjo orquestral tem uma função determinante para envolver o ouvinte na emoção da cena, ora usando os próprios instrumentos musicais, ora os efeitos sonoros produzidos pelos “Mutantes”, que eram especialistas nesses recursos.

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A música “Construção” do Chico Buarque, lançada em 1971, também proporciona sensações idênticas a um drama cinematográfico ou teatral. Conta o dia a dia de um operário da construção civil que sofre um acidente fatal, ao cair de cima do prédio onde trabalhava. A mensagem poética é de crítica social, relatando as condições de risco que esses trabalhadores estão sujeitos, e a sua morte, ironicamente, “atrapalha” o sábado de quem está a caminho do lazer no fim de semana.

“Amou daquela vez como se fosse máquina,
Beijou sua mulher como se fosse lógico,
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas,
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro,

E flutuou no ar como se fosse um príncipe,
E se acabou no chão feito um pacote bêbado,
Morreu na contramão atrapalhando o sábado.”

O arranjo, também de autoria do maestro Rogério Duprat, desempenha um papel marcante na atmosfera dramática da música, destacando-se os metais e os instrumentos de percussão, levando o ouvinte para dentro da cena que a música descreve.

*** ***

Paulinho da Viola, em 1969, compôs a música “Sinal Fechado”, que relata uma cena rápida no momento em que o semáforo está vermelho, no trânsito, e duas pessoas que não se viam há tempos, conversam algumas amenidades e prometem se encontrar ou telefonar, e se despedem após a luz verde acender. Nessa canção a orquestra fica um pouco em segundo plano, sugerindo apenas nostalgia, e a ênfase da mensagem é focada no reencontro de dois conhecidos. O evento por ser muito comum, o ouvinte logo se identifica e imagina ver a cena.

“Olá, como vai?
Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem eu vou indo correndo,
Pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca,
De um sono tranquilo, quem sabe,
Quanto tempo, pois é,
Quanto tempo…?”

“Por favor, telefone, eu preciso,
Beber alguma coisa, rapidamente,
Pra semana,

O sinal,
Eu procuro você,
Vai abrir, vai abrir,
Prometo, não esqueço,
Por favor, não esqueça, não esqueça, não esqueça,
Adeus.”


Mas há uma música do compositor Miguel Gustavo, autor de “Pra frente, Brasil”, espécie de hino informal da seleção brasileira de futebol em 1970, que é o próprio roteiro de um filme, um bangue-bangue – “O Rei do Gatilho” –, interpretada pelo sambista de breque Moreira da Silva.

Com um toque de sátira, o drama se desenrola com todo o aparato das películas de faroeste americano; assovio chamando um cavalo, duelo e tiroteio no “saloom”, bailarinas desmaiando e uma troca de tiros tão intensa que até hoje ninguém sabe quem morreu…

“Começa o filme com o garoto me entregando,
Um telegrama do Arizona, onde um bandido de lascar,
Um bandoleiro transviado que era o bamba lá da zona,
E não deixava nem defunto descansar,

Dizia urgente que eu seguisse em seu socorro,
A diligência do oeste neste dia ia levar,
Vinte mil dólares do banco Águia de Prata,
Onde a mocinha costumava me encontrar…”

É interessante essa junção de música, poesia, cinema e teatro; existem canções que simplesmente relatam um fato, fazem uma crítica, uma declaração de amor, choram uma saudade, enfim, passam emoções meramente auditivas. Outras, como essas citadas acima, vão mais a fundo na alma do ouvinte, levando-o a uma sensação mais interativa, até de imaginar ver uma cena, e sentir a emoção como se estivesse presente.


Fica, então, o desafio às leitoras e aos leitores: pesquisem músicas que têm naturezas como essas, capazes de inspirar verdadeiros filmes nas mentes e corações dos ouvintes.

Na próxima semana a gente volta a se encontrar aqui.

Ou, como cantou o certeiro Kid Moringueira,

“Volte na próxima semana se quiser ser meu amigo
Eu de cowboy fico gaiato, mas não fujo do perigo”

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