A ‘grande bomba’ que vocês NÃO leram no Intercept

Por Gisele Lobato, jornalista, editora no site The Intercept, na newsletter “Fechamento”:

No último dia 23, publicamos uma reportagem que mostrou que parte do dinheiro enviado aos Estados Unidos pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse” saiu de uma empresa investigada pela Polícia Federal por envolvimento direto no escândalo do Banco Master.

A revelação desmontava a tese repetida à exaustão por Flávio Bolsonaro de que os R$ 134 milhões que negociou com Vorcaro seriam dinheiro “privado” e “totalmente lícito”.

Tinha um gosto especial fechar a nossa cobertura eleitoral voltando ao caso de “Dark Horse”. Afinal, foi aqui no Intercept que tudo começou, em maio, com os áudios exclusivos que abriram a série Vaza Flávio.

Mas a sensação de “dever cumprido” durou pouco.

Às 21h51 da mesma sexta-feira, antevéspera da eleição, nosso editor-chefe Leandro Becker criou um grupo com todos os editores batizado com um nome que não deixava dúvidas: “Explode no sábado”.

“Abrindo este grupo aqui porque recebemos um material com potencial de bomba”, avisou.

Só acaba quando termina

Mal a denúncia chegou até nós, o repórter Thalys Alcântara e o editor Eduardo Goulart entraram em campo imediatamente. Havia pouco tempo até o segundo turno, mas tínhamos um plano: o Eduardo escreveria o texto e, no sábado de manhã, o editor Maurício Moraes e eu faríamos duas rodadas de edição e checagem.

Restava pedir posicionamento dos citados na reportagem, submeter o texto à equipe jurídica e alinhar as peças de divulgação para as redes sociais. O Leandro entraria à tarde e faria uma última revisão antes de publicar a história. Daria tempo. Já fizemos isso antes.

No sábado, às 12h50, Eduardo entregou o texto. O Thalys já havia entrevistado especialistas e começava a procurar os alvos da apuração. O bastão passou pra mim.

Mais do que deixar um texto claro, editar é agir como o advogado do diabo. Editor tem que procurar pelo em ovo e perguntar 300 vezes se o repórter tem certeza absoluta do que escreveu. Se a resposta vier rápido demais, a desconfiança dobra: é preciso duvidar de si mesmo e checar mais um pouco.

O editor é, antes de tudo, um chato. E, no Intercept, temos uma regra de ouro: a dupla edição. Cada repórter precisa vencer dois chatos para colocar um texto no ar.

Eduardo normalmente é um desses chatos– nosso chato sênior, meticuloso e detalhista. Mas como tinha apurado e escrito a maior parte daquele texto, ia ter de provar do próprio veneno: ser editado.

Na primeira leitura, o texto parecia pronto para abalar as eleições. Tinha contexto, verossimilhança, personagens do primeiro escalão, denúncia protocolada junto às autoridades e o principal: um documento. O Eduardo havia checado a fonte, o histórico e os dados básicos. Tudo parecia se encaixar.

O diabo mora nos detalhes

Enquanto eu mexia no texto, Maurício avançou na checagem.

O Eduardo havia comparado uma das assinaturas encontradas no papel com outras da mesma pessoa, de outros documentos, e eram similares. Quando Maurício colocou a lupa no mesmo ponto, o sinal de alerta disparou: tinha uma assinatura desse personagem na Wikipédia.

O problema? Ela era parecida demais. Ao sobrepor as duas assinaturas, o Maurício verificou que eram absolutamente iguais. Ninguém assina com a mesma precisão geométrica duas vezes na vida.

Indício de falsificação? Mas havia outras informações verídicas na história… E se a pessoa que assinou tiver digitalizado sua própria assinatura e usado a mesma imagem em vários documentos?

Em seguida, o próprio Eduardo notou que o endereço usado no documento era de um imóvel comprado depois da assinatura. Outro alerta vermelho. E se o imóvel estivesse alugado antes de ser comprado? Fomos checar.

No meio desse turbilhão, resolvi puxar o fio da assinatura da Wikipédia. Tenho doutorado em História e estou acostumada a lidar com caligrafias e arquivos antigos.

Se a tese de que era uma assinatura digital replicada estivesse correta, ela precisaria aparecer em mais documentos. Então, baixei o arquivo e fiz uma busca reversa pela imagem no Google. Nada.

Fui checar os metadados do arquivo e lá estava o rastro: o arquivo havia sido criado no dia 5 de outubro deste ano. Segundo a Wikipédia aquela assinatura havia sido retirada de um documento de 2002.

A pessoa tinha tido 24 anos para digitalizar aquela assinatura e torná-la pública, mas resolveu fazer isso dias antes de a gente cruzar com ela? Era suspeito. Mais suspeito ainda foi descobrir que o perfil que subiu o arquivo tinha sido criado mais ou menos na mesma época.

Quando eu compartilhei minha descoberta com a equipe, o Maurício notou que nenhum verbete brasileiro da Wikipédia estava usando aquela imagem, apenas algumas páginas aleatórias no exterior.

A sensação foi de que o arquivo fora plantado para “validar” preventivamente uma falsificação caso jornalistas jogassem o nome na rede. Confrontamos a fonte novamente com todas as inconsistências. A resposta não nos passou segurança.

Às vésperas da abertura das urnas, tomamos uma decisão unânime: a “grande bomba” estava cancelada. Não podíamos garantir a autenticidade do documento. Podia ser uma fraude deliberada ou uma casca de banana para desmoralizar a redação no momento mais crítico do ano.

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