
Do jornalista Paulo Motoryn (foto ao lado), na newsletter Noites Húngaras:
Pedro Telles é diretor de programas do Democracy Hub (D-Hub), uma organização internacional dedicada a estudar estratégias para enfrentar o autoritarismo e fortalecer a democracia ao redor do mundo.
No ano passado, participei, a convite do D-Hub, de um encontro com jornalistas que investigam governos autoritários em dezenas de países. Foi uma experiência que me marcou profundamente e ajudou a inspirar os caminhos que venho buscando para o meu próprio trabalho.
Em uma de suas várias iniciativas, o D-Hub reuniu anos de pesquisas, entrevistas e experiências concretas em uma espécie de manual prático de enfrentamento ao autoritarismo.
Depois das eleições, conversei com Pedro sobre como trazer essas lições para a realidade brasileira. O resultado é o texto que vocês vão ler a seguir, escrito por ele e que ajudei a pensar e adaptar ao nosso contexto: um roteiro de dez prioridades para enfrentar uma extrema direita que perdeu a Presidência, mas continua poderosa e disposta a atacar a democracia.
Lula foi reeleito presidente da República e o Brasil impediu o retorno da família Bolsonaro ao Palácio do Planalto. É uma vitória histórica da democracia. Mas seria um erro confundir a derrota eleitoral de Flávio Bolsonaro com o fim da ameaça autoritária.

A extrema direita sai das eleições com enorme força no Congresso Nacional, especialmente no Senado, onde terá condições de pressionar o Supremo Tribunal Federal e tentar avançar com iniciativas de impeachment de ministros.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, fugiu para os Estados Unidos, de onde poderá contar com o apoio de Donald Trump e de outros líderes da extrema direita internacional. Apesar do resultado da eleição, o projeto político que ele representa continua vivo, organizado e com instrumentos poderosos para atacar a democracia brasileira.
Não temos tempo para descansar. É importante celebrar a vitória e fazer um balanço dos nossos acertos e erros, mas também precisamos começar a organizar a resistência desde já.
No Democracy Hub (D-Hub), foram estudadas durante dois anos as estratégias e táticas mais eficazes para frear líderes autoritários mundo afora, organizadas no Anti-Authoritarian Toolkit. O material, elaborado com base em centenas de entrevistas e estudos de caso, é um guia prático que cobre diversas frentes de atuação.
Com base nele e no que observamos neste ciclo eleitoral, aqui vão os 10 passos que parecem mais importantes e urgentes para o nosso contexto.
- Repense estruturalmente a sua comunicação
A disputa é de longo prazo, a comunicação desempenha um papel central, e ter apenas a melhor narrativa não é suficiente. Também é preciso ter maior volume e frequência de conteúdos, e maior alcance e capacidade de coordenar um ecossistema de atores que reforcem incansavelmente as mesmas mensagens-chave.
Se você se propõe a falar com um público amplo, mas ainda se limita a uma lógica de comunicação institucional ou de campanhas com começo, meio e fim, isso não bastará. Se ainda trata a comunicação como algo a ser pensado depois de ter uma estratégia política pronta, e não a coloca na origem e no centro dessa estratégia, vai ficar para trás.
Se pensa online e offline de formas separadas, está desperdiçando oportunidades valiosas. E, se não tem um plano para comunicar no WhatsApp nem atua em parceria com criadores de conteúdo, está no passado.
A vitória de Lula demonstrou a importância da mobilização digital e popular. Mas a extrema direita continuará produzindo conteúdo, organizando suas redes e disputando a opinião pública diariamente, independentemente de estar fora do Executivo federal – e historicamente tem se mostrado melhor do que nós em fazer isso fora do período eleitoral.
Nem todo mundo precisa fazer comunicação de massa. Mas mais gente precisa fazer do que está fazendo hoje. E quem se propõe a fazer precisa fazer melhor.
- Construa a capacidade de dialogar com eleitores não radicalizados de Flávio Bolsonaro
Em debates a respeito de qualquer tema político, é possível dividir as pessoas em três grupos: as que concordam com você, as que discordam e as que estão em dúvida ou não se importam o suficiente para formar uma opinião. Via de regra, uma parcela muito importante da população está no terceiro grupo, e vence a disputa na sociedade quem consegue conquistar mais pessoas desse grupo.
No campo progressista, e no campo democrático mais amplamente, temos bastante gente boa em falar com a própria base. Mas ainda enfrentamos dificuldades para dialogar com indecisos e desinteressados.
No próprio caso do enfrentamento ao Flávio, por exemplo, pesquisas indicaram que sua associação a escândalos de corrupção (algo muito explorado pela esquerda) era menos relevante para esses eleitores do que o fato dele não ter feito nada relevante como senador, e concorrer à presidência não por mérito próprio mas apenas por ser filho do seu pai – e do que sua inclinação a ceder interesses brasileiros a Trump.
Milhões de brasileiros votaram em Flávio Bolsonaro, mas nem todos são extremistas. Parte desse eleitorado pode ser conquistada por uma alternativa democrática, desde que saibamos compreender suas preocupações e conversar com essas pessoas.
Temos dificuldade em reconhecer que a linguagem e os argumentos que ressoam na nossa base muitas vezes não ressoam nesses eleitores. Em diversas pautas, eles ainda veem parte das nossas ideias e propostas como distantes do que consideram prioritário.
Precisamos não apenas ouvir mais, mas também ser mais flexíveis. Entender que será necessário atender demandas que não necessariamente vemos como as mais importantes, mas que são valorizadas por indecisos e desinteressados, para que eles também tenham disposição para nos ouvir.
E será preciso falar a língua dessas pessoas, em vez de esperar que elas entendam a nossa.
- Enfrente as Big Techs
O nível de poder hoje concentrado nas mãos de um grupo muito pequeno de empresas de tecnologia é um risco maior do que aquele apresentado por qualquer líder autoritário. Sutis mudanças em algoritmos sobre os quais não temos visibilidade alguma podem mudar o curso de uma eleição ou de qualquer debate público.
Mesmo que não haja interesse ativo dessas empresas em fazer isso, a indisposição para corrigir vieses existentes é suficiente para favorecer o campo extremista.
A derrota de Flávio nas urnas não elimina esse problema. As plataformas continuarão exercendo enorme influência sobre a circulação de informações, a formação da opinião pública e as próximas disputas eleitorais.
Assim, ainda que precisemos disputar as redes na forma como funcionam hoje, não avançaremos suficientemente sem sua devida regulação.
A luta por uma internet menos centralizada nas mãos de poucas Big Techs, e pela devida responsabilização dessas empresas pelos crimes que cometem ou com que são coniventes, não é relevante apenas para o futuro da democracia –mas também para empresas que dependem dessas empresas para publicidade e vendas, e para usuários que recebem serviços cada vez piores e mais abusivos, mas não conseguem abandonar plataformas monopolistas.
No século XX, demoramos demais para começar a regular as indústrias que geram a crise climática, e agora estamos lidando com as consequências desse problema. No século XXI, as Big Techs já concentram um poder extraordinário, e não podemos perder tempo.
A luta pela regulação das Big Techs é uma luta de todos nós, independentemente da área principal de atuação de cada um.
- Continue ocupando as ruas, e pense o online e o offline de forma integrada
Uma das melhores partes da campanha eleitoral deste ano foi ver o campo democrático arregaçando as mangas no segundo turno, organizando grandes atos e protestos, e buscando virar votos no corpo a corpo. Essa mobilização ajudou a derrotar Flávio Bolsonaro, e não existiria da mesma forma sem sua integração com esforços digitais como o Exército do Lula e outras mobilizações no WhatsApp, grupos coordenados de influenciadores convocando as pessoas para as ruas, bem como sites, perfis e grupos dedicados a orientar quem queria virar votos.
Até recentemente, a extrema direita estava à nossa frente nessa integração do online com o offline. Viramos o jogo na campanha eleitoral, e precisamos nos manter na dianteira. Não vamos derrotar definitivamente os extremistas atuando apenas no digital, nem tratando online e offline como dimensões separadas e com estratégias desconexas.
A extrema direita brasileira chama a atenção de todo o mundo desde 2018 por sua impressionante capacidade de pautar o debate nas redes, mas, de forma conectada a isso, também construiu uma presença territorial importante, por meio de igrejas, associações, movimentos e redes locais.
Precisamos de mais ações diretas nas ruas, mais atividades presenciais, mais esforços centralizados e descentralizados que promovam encontros ao vivo, e mais atuação política onde as pessoas vivem seu dia a dia – tudo sendo facilitado e potencializado por estruturas de organização digitais.
Esse esforço será especialmente importante diante de um Congresso que buscará impor retrocessos mesmo contra a vontade do governo eleito. A capacidade de ocupar redes e ruas de forma coordenada precisará funcionar como instrumento de pressão sobre parlamentares.
E precisamos também de mais disposição para recuperar o papel de quem pauta a contracultura, hoje apropriada em parte pela extrema direita, por meio de ações diretas, intervenções artísticas e outros esforços de tensionamento que aconteçam offline mas sejam pensados para também viralizar online.
- Amplie a fiscalização das principais lideranças da extrema direita
A derrota de Flávio Bolsonaro não retira do cenário político as demais lideranças do bolsonarismo. A atuação desse campo não depende exclusivamente de um candidato ou de sua presença no Executivo federal.
Flávio, Jair e Eduardo Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira representam diferentes posições e formas de atuação dentro desse espaço político. Suas iniciativas, alianças, propostas e relações com instituições públicas precisam ser examinadas individualmente, com base em fatos verificáveis.
O novo cenário exige atenção tanto às articulações parlamentares quanto à atuação nas redes sociais, às mobilizações públicas e às conexões internacionais. Também será importante distinguir as agendas comuns dessas lideranças de eventuais divergências entre elas, sem presumir que atuem sempre de maneira coordenada.
O acompanhamento jornalístico e da sociedade civil deve considerar os efeitos concretos de suas propostas e ações sobre as instituições democráticas, os direitos fundamentais e as políticas públicas. A fiscalização precisa alcançar não apenas os nomes mais conhecidos, mas também as redes políticas e institucionais por meio das quais exercem influência.
- Atue em coalizões amplas
Ninguém vai derrotar a extrema direita sozinho, e quem tentar ser herói tende a virar alvo. A melhor forma de nos protegermos e avançarmos é atuar em coalizões amplas de organizações, movimentos e partidos. A coletividade dilui os riscos, amplia a resiliência e nos dá mais força para enfrentar ataques.
Coalizões compostas por atores já alinhados politicamente são mais fáceis de construir ou fortalecer, mas será necessário sair da zona de conforto. Se organizações da sociedade civil conseguirem sentar com empresários preocupados com a democracia e construir esforços conjuntos, os dois grupos irão mais longe do que iriam sozinhos. Se políticos de esquerda conseguirem coordenar esforços genuínos com a direita democrática, também.
A nova composição do Congresso torna essa necessidade ainda mais urgente. A defesa da independência do Judiciário, das regras eleitorais e dos direitos fundamentais não pode depender exclusivamente de parlamentares de esquerda.
Estamos lidando com uma ameaça maior do que nossas preferências individuais. A prioridade precisa ser impedir que a extrema direita utilize seu poder institucional para enfraquecer a democracia e preparar seu retorno ao Executivo, buscando as estratégias mais eficazes para isso, mesmo que não sejam confortáveis.
- Tome riscos
Tampouco vamos derrotar a extrema direita jogando seguro ou ficando na defensiva. Precisamos trabalhar por mudanças ousadas e significativas em um contexto onde o povo está cansado da forma como as instituições funcionam hoje, canalizando a energia anti-sistema rumo a reformas democráticas e focadas na expansão de direitos, e também estar dispostos a explorar novas estratégias, táticas e ferramentas para frear o campo autoritário.
Se você é parte de uma organização ou movimento que ainda não se envolve diretamente em atividades relacionadas a eleições ou partidos políticos, está na hora de reconsiderar essa postura.
Se decidir moderar seu discurso e suas propostas não porque descobriu que isso é mais estratégico para engajar cidadãos e avançar nas suas agendas, mas por medo de represálias, possivelmente estará abrindo mão da sua capacidade de disputar corações e mentes.
Se tem receio de repensar de verdade a estrutura e funcionamento da sua organização ou movimento para colocar mais energia no que os novos tempos pedem, ou explorar o que novas ferramentas como a inteligência artificial podem oferecer na construção de projetos e campanhas, a hora de começar é agora.
A vitória eleitoral não deve produzir acomodação. O bolsonarismo continuará organizado e poderá utilizar seu poder parlamentar, sua presença territorial e suas alianças internacionais para atacar adversários e instituições.
O momento pede coragem, disposição ao risco e inovação estratégica e tática. Não avançaremos se continuarmos fazendo tudo da mesma forma nem se deixarmos o medo nos conter.

- Apoie o jornalismo investigativo
Por todo o mundo, o jornalismo investigativo vem se mostrando crucial para o enfrentamento a líderes autoritários.
Aqui no Brasil, quem acompanha newsletters independentes como esta que você está lendo, veículos como a Agência Pública e o Núcleo Jornalismo, ou iniciativas como o Revelando e o ICL Notícias, sabe da relevância disso e de como informações reveladas por jornalistas já cumprem um papel central no enfrentamento ao bolsonarismo.
A vitória de Lula não diminui essa necessidade. Com a extrema direita fortalecida no Congresso, o jornalismo precisará investigar o uso do poder parlamentar, as articulações para pressionar o Judiciário, o financiamento de movimentos extremistas e as conexões internacionais de lideranças políticas brasileiras.
Acontece que esse tipo de trabalho precisa ser financiado, e uma das formas de mantê-lo vivo é com o apoio direto de leitores. Se você ainda não paga assinaturas ou faz doações para jornalistas investigativos comprometidos com a defesa da democracia, considere começar agora.
Sem jornalismo independente e capacidade permanente de fiscalização do poder, não iremos muito longe. E o apoio a ONGs e movimentos sociais que estão na linha de frente também é necessário.
- Comece a pensar em como vamos proteger as próximas eleições
As eleições de 2028 começam a ser disputadas agora, e a extrema direita não vai perder tempo. Partidos alinhados à defesa da democracia precisam começar a pensar em quem serão seus candidatos e preparar o terreno.
Mas, para além da capacidade de ganhar eleições, precisamos garantir que efetivamente haverá eleições livres e justas.
Afinal, conhecemos o histórico da família Bolsonaro, do questionamento às urnas à tentativa de golpe. A derrota de Flávio em 2026 não significa que esse projeto tenha sido abandonado – pelo contrário, ele dobrou a aposta ao não reconhecer sua derrota, contando com o apoio de peso de Trump e Milei.
Soma-se a isso a preocupação com a atuação de plataformas digitais, e com decisões questionáveis de autoridades eleitorais diante de ameaças arquitetadas por atores anti-democráticos.
A presença de Flávio nos Estados Unidos e suas articulações com lideranças estrangeiras tornam especialmente importante acompanhar eventuais novas tentativas de interferência externa na política brasileira. A garantia da integridade eleitoral continua sendo uma prioridade do mais alto nível no país. E precisamos nos preocupar com isso desde já.
- Se você é de esquerda, evite o fratricídio; se você é de direita, construa uma alternativa viável
A reeleição de Lula representa uma vitória histórica, mas não resolve o problema da sucessão de sua liderança. A esquerda continuará precisando discutir seu futuro e preparar novas lideranças para os próximos ciclos eleitorais.
Como Lula não será mais candidato, é fácil imaginar esse processo levando a duras disputas por protagonismo entre diferentes atores do campo desde já – afinal, o vácuo que ele deixa na esquerda é sem precedentes. Mas não há momento pior para nos fragmentarmos. Mundo afora, uma das principais fraquezas de esforços de enfrentamento a líderes autoritários é a incapacidade dos seus adversários de permanecer unidos diante de disputas internas de poder.
Aqui, não há solução mágica. Disputas na esquerda são inevitáveis. O máximo que podemos fazer é estar conscientes do risco de fragmentação e dispostos a trabalhar por cenários em que abrimos mão de ganhar mais sozinhos para ganhar mais juntos.
Isso vale não apenas para políticos e partidos, mas também para organizações, movimentos e redes da sociedade civil.
Já a direita democrática perdeu, nos últimos quatro anos, a oportunidade de escantear definitivamente o bolsonarismo e construir uma alternativa viável.
A derrota de Flávio abre uma nova oportunidade, mas a força da extrema direita no Congresso mostra que essa tarefa está longe de ser concluída.
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