João Filho: “O paraíso liberal da extrema direita acabou em fraude”

Por João Filho, jornalista do site The Intercept, na newsletter Caos & Paixão:

No dia seguinte à vitória de Lula, a produtora de vídeos Brasil Paralelo publicou um documentário sobre o Paraguai, o país que virou o “Novo Eldorado” capitalista na mitologia do bolsonarismo.

Intitulado “Paraguai, o destino inesperado”, o filme é um panfleto de defesa do estado mínimo e da desregulamentação da economia. Como se sabe, a Brasil Paralelo é uma produtora de extrema direita, seguidora dos ensinamentos de Olavo de Carvalho e que se dedica a questionar consensos históricos e científicos, sempre sob o viés reacionário.

O documentário, que já atingiu mais de 1,2 milhão de visualizações, pinça casos isolados de empresários brasileiros bem sucedidos no país e os apresenta como prova de que estamos diante de um paraíso do empreendedorismo no continente. Mas esse é um Paraguai paralelo fabricado pela produtora Brasil Paralelo.

A fantasia não resiste a uma breve pesquisa no Google. O Paraguai é a 95ª maior economia do mundo, tem um PIB 40 vezes menor que o do Brasil e conta com uma infraestrutura limitada, muito abaixo dos países vizinhos.

Mundinho fantástico do bolsonarismo

O documentário faz parte de uma onda que vinha crescendo entre os bolsonaristas desde 2023, quando o Paraguai passou a ser governado pelo conservador Santiago Peña, do Partido Colorado. Perfis e parlamentares bolsonaristas passaram a tratar o país como um paraíso liberal dos baixos impostos e da flexibilidade trabalhista.

O Véio da Havan [na foto acima, com Santiago Peña, ex-presidente do Paraguai e envolvido até a medula no escândalo que destruiu o país] conclamou empresários brasileiros a irem para o país vizinho: “Empresários brasileiros, venham para o Paraguai!. Aqui o empresário não paga a ineficiência do governo. Aqui você paga poucos impostos. Pode se desenvolver, pode crescer”. O então candidato Flávio Bolsonaro (PL) teceu elogios ao presidente paraguaio por “modernizar o estado” e “investir em governo digital”.

A busca pelo Paraguai cresceu tanto nos últimos dias, que o governo paraguaio organizou um mutirão para receber os brasileiros que desejam morar no país.

Mas eis que a realidade se impôs e derreteu o mundinho fantástico do bolsonarismo. De repente, milhões de paraguaios amanheceram sem acesso às suas contas bancárias. Uma enorme crise bancária tomou conta do país após a descoberta de uma fraude financeira envolvendo o Ueno Bank, o maior banco digital nacional.

Para se ter uma ideia do tamanho do buraco, 60% da população paraguaia adulta é correntista do banco, que tem sob sua gestão US$ 850 milhões em recursos públicos.

O caso empurrou o país em uma enorme crise econômica e política, levando o presidente Peña e o presidente do Banco Central, Carlos Carvallo Spalding, a renunciarem – ambos envolvidos até o talo no escândalo.

Qualquer semelhança não é mera coincidência

O ex-presidente foi sócio comercial do Grupo Vázquez (controlador do banco) até março de 2025. Já Spanlding atuou diretamente como presidente da Ueno Holding SAECA (a entidade que deu origem ao banco) entre 2021 e 2023. Ele deixou o cargo para assumir o comando do Banco Central do Paraguai.

Com quatro meses de governo de Peña, o banco, que ainda era pequeno, começou a captar recursos públicos, incluindo dinheiro da Previdência e do Ministério da Saúde. A fiscalização foi afrouxada, as fraudes contábeis foram acobertadas, enquanto o banco quebrava silenciosamente.

Foi assim que o Ueno teve uma expansão meteórica. É esse o nível de pistoleiragem da direita que comanda o Paraguai, que se tornou uma das principais referências de boa governança do bolsonarismo no continente.

Qualquer semelhança com o escândalo do Banco Master não é mera coincidência. O Ueno Bank nasceu e cresceu graças à anuência do governo paraguaio, tal qual o Master durante a gestão de Jair Bolsonaro. Não será estranho se Peña e sua turma fugirem para Miami com o rabo entre as pernas, tal qual os filhos de Jair Bolsonaro.

A quebra do banco praticamente interrompeu o comércio no país e levou centenas de pessoas às ruas de Assunção, capital do Paraguai. Diante de um impeachment inevitável, Peña renunciou para evitar a perda dos seus direitos políticos e manter a imunidade.

É porque na pujante democracia paraguaia, um presidente que renuncia ganha direito a um cargo vitalício de senador, garantindo foro privilegiado e outras benesses até o fim da vida. O Paraguai é o único país do continente em que existe esse gatilho para um presidente acusado de corrupção escapar de um processo judicial. Apesar disso, Peña ainda corre risco de perder a mamata, já que o Congresso iniciou o processo para votar o impeachment dele e do seu vice.

O custo da desinformação é alto demais

A cartilha neoliberal, que defende baixos impostos e pouca regulação econômica, nunca foi sinônimo de prosperidade ou boa governança. Pelo contrário, é no enfraquecimento do estado que a roubalheira encontra brechas para acontecer. O escândalo expôs a falácia da propaganda dos baixos impostos, da baixa regulação econômica e da solidez jurídica para os negócios.

O fato é que democracias e economias sólidas não sobrevivem em países com estado mínimo. Não há na história um único exemplo de país que se tornou uma potência econômica sem a forte presença do estado.

Assim, a tão proclamada pujança econômica e democrática do Paraguai foi dissolvida em poucos dias. Enquanto bolsonaristas sonhavam com ela, o presidente do Paraguai se enchia de dinheiro depois de sequestrar o Banco Central.

Esse era o Eldorado liberal sulamericano do bolsonarismo: meia dúzia de ricos ficando mais ricos às custas do suor do povão. O custo da desinformação é alto demais.

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