O Sertão Central cearense ganha protagonismo no cinema com “Nova Terra”, longa-metragem dirigido pelo cineasta Fram Paulo e realizado pela Uzina Filmes. A sessão será hoje, sábado, 7.11, às 20h, no Centro Pastoral de Senador Pompeu, como parte da programação da 8ª Semana Cultural da Caminhada da Seca. A entrada é gratuita e a sessão contará com a presença do diretor, elenco e equipe técnica, seguida de debate com o público.
Contemplado com recursos da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), o filme nasce no interior do Ceará e transforma a paisagem da Caatinga em elemento fundamental da narrativa. A produção acompanha sete jovens artistas de teatro que se isolam no Sertão Central para criar um espetáculo autoral. O processo artístico, porém, toma outro rumo quando eles entram em contato com as inscrições da Pedra do Letreiro, os mistérios da Serra dos Encantados e as histórias ancestrais da região.
A partir dessa experiência, a criação teatral dá lugar à formação da Irmandade Nova Terra, em uma narrativa que aproxima realidade, teatro, espiritualidade, memória e mito.
O ambiente como personagem
Para Fram Paulo, o sertão não funciona como simples cenário. A paisagem interfere diretamente nas escolhas dos personagens e conduz a transformação do grupo.
“O sertão não é um vazio. Ele respira, ensina, guarda memórias e revela forças invisíveis a quem sabe escutar. Sempre digo que o sertão é um universo e há o sertão dentro e fora de mim.”
O diretor acrescenta que essa perspectiva foi determinante para a construção do longa: “No filme, ele deixa de ser pano de fundo e passa a agir diretamente sobre os personagens, conduzindo conflitos e transformações. A Caatinga não testemunha a história; ela é quem dita o tempo da história.”
A relação de Fram Paulo com a cultura popular também está presente na concepção do filme. Antes de sua formação cinematográfica, o diretor teve contato com o teatro comunitário, o reisado, as manifestações populares e as histórias transmitidas oralmente.
“Antes de qualquer formação acadêmica, minha experiência com arte veio do terreiro, do reisado, das histórias contadas à noite. Eu já fazia teatro sem saber. Em Nova Terra, essa raiz aparece na forma como os corpos ocupam o espaço e como a palavra ganha força dentro da imagem.”
Elenco formado por artistas do Ceará
O longa reúne majoritariamente artistas locais e coloca em cena personagens com diferentes experiências, conflitos e visões sobre o sertão.
Luana Aflla, em sua estreia no audiovisual, interpreta Margarida, personagem que tensiona o grupo ao defender questões como soberania agrária, posse da terra e direitos da população sertaneja.
Renato de Humaitá, ator e professor de teatro, vive Jeremias, personagem ligado às lendas transmitidas por sua avó e às dimensões espirituais da Mata Branca.
Jeovan Lucas, conhecido como Bedeu, interpreta Pedro, integrante cético e resistente às experiências místicas vividas pela irmandade. Sua trajetória parte da desconfiança para uma experiência de pertencimento.
Lua Augusto estreia no cinema como Mariana, personagem marcada pela violência cotidiana e pela necessidade de construir mecanismos de proteção. A atriz também defende a presença de artistas trans e travestis em papéis protagonistas no cinema brasileiro.
Marília Holanda interpreta Coralina, uma jovem que transforma experiências de privação e trauma em fé no teatro. Durante as filmagens, a atriz descobriu a gravidez de seu filho Bento, estabelecendo uma coincidência entre sua própria trajetória e o processo de transformação vivido pela personagem.
Ermesson Matos, como Albino, e João Charlie, no papel de Tonho, interpretam personagens que carregam experiências de desamparo e encontram na irmandade uma possibilidade de pertencimento. A experiência de filmar em locais com pinturas rupestres também aproximou os atores das marcas deixadas pelos povos originários da região.
A dimensão ancestral da narrativa ganha força com Soraia Falcão, que interpreta a Contadora de Histórias, responsável por conectar passado e presente e levantar questões sobre a preservação dos sítios arqueológicos e das memórias do Nordeste.

Já Luciano Lopes (foto acima) interpreta o Radialista, personagem que, por meio das ondas do rádio, acompanha os acontecimentos do lado de fora da comunidade e introduz na narrativa as tensões de um mundo marcado por incertezas.
Som da Caatinga e acessibilidade
A paisagem sonora também foi construída a partir de elementos captados diretamente na região. Galhos secos, vento, vegetação e canto dos pássaros integram a atmosfera do filme e ajudam a transportar a experiência do espectador para o ambiente sertanejo.
A trilha ganha destaque com “Canção da Nova Terra”, música-tema interpretada pelos cantores Agna Ruth e Dedezinho.
Outro aspecto da produção é a acessibilidade. A tradutora e intérprete de Libras Vitória Nogueira, de Acopiara, participou do projeto criando sinais específicos para identificar os personagens Panier, Jeremias, Margarida, Mariana, Coralina, Pedro, Tonho e Albino. A proposta incorpora a Língua Brasileira de Sinais à própria identidade dos personagens e ao universo narrativo da obra.
Um filme que retorna ao território onde nasceu
A primeira exibição em Senador Pompeu estabelece uma relação direta entre o filme e o território que serviu de inspiração para sua realização. A sessão integra a 8ª Semana Cultural da Caminhada da Seca, evento relacionado à memória social do Ceará e às lutas históricas da população sertaneja.
Com produção realizada fora dos grandes centros do audiovisual, “Nova Terra” também coloca em evidência a produção cinematográfica desenvolvida no interior do Estado e a possibilidade de construir narrativas próprias a partir da cultura, da paisagem e das experiências de suas comunidades.
A exibição marca o primeiro encontro do longa com o público e abre espaço para que espectadores, artistas e equipe discutam o processo de criação, as referências culturais presentes na obra e os caminhos do cinema produzido no Sertão Central.
SERVIÇO
Primeira exibição do longa-metragem “Nova Terra”
Data: 7 de novembro
Horário: 20h
Local: Centro Pastoral de Senador Pompeu
Cidade: Senador Pompeu – CE
Programação: 8ª Semana Cultural da Caminhada da Seca
Entrada: gratuita e aberta ao público
Participações: diretor Fram Paulo, elenco e equipe técnica
Após a sessão: debate aberto com os espectadores




