Roberto Maciel: “Passos, cheiros, cores e sombras: um caminho entre Fortaleza e a infância”

Lançamentos – Editora UFCO texto abaixo integra a coletânea Fortaleza Amada, das edições UFC, que será lançado no próximo dia 23, às 17h, na praça São Pedro (Praia de Iracema). É da minha autoria. Escrevi-o unicamente para homenagear a cidade que amamos. Não foi para fruição própria, mas para fazer uma real e pública declaração de inarredável amor:

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Por Roberto Maciel:

Eram firmes e certeiros os passos do meu pai. A mão, segura e protetora, nos levava a acompanhá-lo naquela brincadeira de pisar com alguma elegância e muito equilíbrio nos finos riscos na calçada da simpática proprietária de um pensionato na Rua Pinto Madeira.

Meu pai era tão elegante quanto sedutor, me disse um dia a minha mãe.

Havia naqueles movimentos a mesma precisão de quando, deitados no gramado do Estádio General Eudoro Correia, nome oficial e ignorado do espaço que chamamos sempre de “campo do Colégio Militar”, já no finzinho da tarde e perto da boca da noite, ele nos divertia jogando para cima uma bolinha branca de plástico, desafiando morcegos a darem rasantes sobre nós. Ríamos muito. Éramos crianças.

E eram sábados, sempre sábados.

Muito mais cedo, caminhávamos de casa, na Rua Rodrigues Jr., à casa da minha avó, na Pinto Madeira – uns 600 ou 700 metros, nada mais, que me pareciam uma légua. Passávamos em frente à mercearia do bodegueiro bigodudo e diante da casa de um senhor que me prometeu um coelhinho e ainda hoje, quase 50 anos depois, nunca me deu o tal bichinho.

Havia duas paradas só: a minha, para saudar o jovem recruta que fazia sentinela no Colégio Militar de Fortaleza (“bom dia, soldadinho!”, eu dizia, perfilado), e a deles, para se benzer diante da Igreja do Cristo Rei.

– Amanhã vamos pra “piscininha”?, perguntava eu, interrompendo aquele momento solene de fé com uma dúvida aflita e infantil sobre a animada e movimentada porçãozinha de água salgada que se juntava do lado de  quebra-mar da Praia de Iracema.

Quase vizinha à Igreja está, ainda, a “casa das cujubas”,  com um lindo jardim que faz caírem para fora do muro os galhos de árvores nada comuns na cidade, cujos frutos, não comestíveis, acho, eram duros e de um verde muito forte, de tom fechado. Foi lá, descobri muitos anos depois, que começou a desenhar o gentil Mino Castelo Branco.

A lembrança desses caminhos, que de brincadeira se tornaram um jeito alegre de reencontrar com memórias dos meus pais e da minha cidade, me faz mergulhar na minha infância e na doçura que Fortaleza me traz – por mais áspera que tenha sido e esteja sendo, sempre será doce essa fortaleza que nos preenche e sustenta, que dizemos ser “nossa”.

Havia ali amor, carinho, sorrisos, atenção, ingenuidade, proteção, cheiro de oitis e frescas sombras de casas velhas e acolhedoras. Havia ali uma beleza que encantava meninos e seus pais. Havia ali calçamentos de paralelepípedos que, de tão exatos, me intrigavam: “Quem cortou?”, questionei uma vez.

Até mesmo casmurras manifestações militares naquele pedaço de chão, com cavalos altos e simpáticos carneirinhos de pelos pintados, tambores que me soavam (e ainda soam) desagradáveis, armas, jipes, grandes holofotes e canhões que não faziam questão de esconder os graves e antidemocráticos dias que atravessávamos nos anos 1970. Escondiam, na verdade, e como escondiam!, perseguições, torturas, censura e assassinatos cometidos por capangas de um estado psicopata e covarde.

Descontada a brutalidade em dias tão sorridentes, a inocência ainda nos impregna na alma um jeito de felicidades perdidas, daquelas que parecem que nunca vão voltar – e é certo que não voltem mesmo, já não somos os mesmos e não vivemos como os nossos pais, afinal.

Felicidades que têm cheiro de café com tapioca, suco de graviola, cajá-umbus e cajaranas, cajus, jacas e ciriguelas (ou serão ceriguelas, siriguelas ou seriguelas?). E, vá lá, de cera de assoalho e gasolina.

Mas o que nos fica, para sempre vai ficar, é Fortaleza – saborosa, quente, apaixonante, viva, experiente e resiliente.

Nossa Fortaleza.

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