Por Ana Márcia Diógenes, jornalista e escritora:
– Não dá para tirar um pão pra pesar menos e eu poder pagar?
Não dava, explicou a moça do caixa no supermercado. Só na padaria, onde os funcionários usam luvas e têm autorização para reduzir o número de pães no pacote já pesado.
– É que não tenho tempo, saí correndo do trabalho só para pegar os pães do lanche do pessoal.
Uma senhora que aguardava a vez de ser atendida perguntou quanto era a diferença. Um real. A moça do caixa até disse que tinha o dinheiro, mas era proibida de fazer isso. A senhora então recebeu os oito reais, amiudado em quatro notas de dois reais que o rapaz tinha e incorporou na compra dela. Impasse desfeito.
Os pães seguiram seu caminho para o lanche de funcionários de alguma empresa por perto, que devem ter se cotizado. O rosto do rapaz era de agradecimento e alívio por ter conseguido cumprir a tarefa. Assisti a tudo ali por perto, mais para trás na fila do caixa. Fiquei observando os passos de uma dança de gentilezas que nem sempre precisa ser
combinada, nem sempre precisa ter música para que corpos e mentes se ajustem.
Há uma linguagem maior em tudo o que a vontade de ajudar toca. E esse idioma – o da solidariedade – é apenas o de querer fazer alguém feliz.
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Ana Márcia Diógenes é graduada em Comunicação Social (UFC), especialista em Responsabilidade Social e em Psicologia Positiva e mestra em Planejamento e Políticas Públicas. É professora de Jornalismo (pós-graduação), escritora e consultora em comunicação e direitos para a infância e juventude.


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