A Crônica da Ana Márcia: “Leques para que te quero”

Por Ana Márcia Diógenes, escritora, jornalista e professora:

Tenho vários leques guardados na minha mesa de cabeceira. São recordações de viagens ou presentes que amigos e parentes me deram. Cada um mais bonito do que o outro. Um deles é da Espanha, outro de Portugal e por aí vai. Interessante, né? Só que tenho me dado conta, cada vez mais, de que estão no lugar errado.

Em cidades de sol generosíssimo, como Fortaleza, onde o que seria inverno é apenas um período de céu cinza com raras chuvas, ter leque em gaveta é quase o mesmo que ter escovas de dentes só para enfeite.

A princípio, a comparação pode parecer exagerada, mas os dentes só ficam limpos e a boca com bom hálito, se usarmos corretamente a escova de dentes. No caso do leque, é o alívio do calor, do suor, da queimação na pele do rosto que podemos garantir.

Além da utilidade, é um charme se abanar com leques. O abrir das folhas ou ventarolas – ligadas uma à outra por renda, tecido, seda, papel e outros materiais – nos permite ver desenhos, bordados e pinturas. Dependendo da imagem que formam, agregam graciosidade a quem os usa.

Nos acostumamos a ver em filmes personagens femininas cruzando as pernas, baforando um cigarro e, num lance rápido com as mãos, desdobrando as folhas de um leque. O movimento tem um barulhinho característico, próprio do toque entre as folhas e depende do material que as compõe.

Nesta cena, vários itens precisam ser revistos: leque não é uma questão de gênero e sim de calor; e cigarro faz mal à saúde. Mas acho, e defendo, que o leque deveria integrar o cotidiano como um objeto tão importante quanto as garrafinhas d’água que passaram a se incorporar às saídas de casa.

Alguns objetos são erroneamente classificados como antigos ou cafonas, fazendo com que as pessoas, mesmo diante da necessidade, sequer pensem em usá-los. Por isso, escrevi esta crônica para convidar todos e todas que não queiram arder no calor de suas cidades para, além do protetor solar (é claro), derrubarmos juntos e juntas qualquer preconceito contra o bom, bonito e útil leque.

Ah, e poderíamos inserir aqui a sombrinha, o bom guarda-sol, mas deixa para outro texto.

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Ana Márcia Diógenes (na foto no alto) é graduada em Comunicação Social (UFC), especialista em Responsabilidade Social e em Psicologia Positiva e mestra em Planejamento e Políticas Públicas. É professora de Jornalismo (pós-graduação), escritora e consultora em comunicação e direitos para a infância e juventude.

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