No dia anterior, Madalena Sofia relaxou após à viagem a Lagoa da Rosa. Lá, fotografou árvores, flores, ângulos de nuvens e serras para postar um novo ensaio nos seus perfis de fotógrafa amadora – uma paixão intensa recente que nem a crescente militância feminista. “Madá”, todavia, acordara ansiosa com o quê o sábado prometia.
Participaria, em sua região, do Ato Nacional. Não sabiam, mas seria o maior evento de mulheres em repulsa a um candidato realizado na história do país. “Leninha” organizava pelas redes, perfis, contas, ajudando a neutralizar os que tentaram derrubar na internet a campanha e a mobilização das mulheres contra “ele”.
Desde primeiro semestre, aos 17, “Madá” era do M.E, ocupou a Reitoria por vagas docentes e recursos estudantis. Agora ia emocionada, tensa, engajada, congelada e sempre alerta desde os assassinatos de Marielle e Anderson quando o ar ficou tão pesado que podia ser cortado com uma faca: “Ele quer destruir tudo, massacrar minorias!”; “Somos uma fraquejada pra ele”, “Odeia gays, meninas lésbicas”; “Negros medidos em arrobas”.
Madalena Sofia pegou a bolsa, a faixa. Beijou mãe e pai que cuidavam da casa e dos irmãos caçulas. Os pais pediram novamente que ela, “Leninha”, tivesse cuidado.
Partiu ao encontro das amigas e outras mulheres com os cartazes, outras faixas, para a passeata da Praça do Bomfim até a Antiga Estação. De cara encontrou a Lili nos primeiros degraus em meio ao mulherio multicolorido da Faculdade que na semana discutira palavras de ordem e estratégias do evento. Vera e Laura surgem, mãos dadas, elas sempre tomavam licor no Café com vista para a Represa e o Balneário. Militantes combatentes da época da ditadura aparecem com os megafones. O carro de som da Associação tinha ficado de vir, até agora nada… Senhoras religiosas presentes: das CEBs passadistas, evangelizadoras e do método Paulo Freire na zona rural; outras eram crentes pregando que “ele é o inimigo que veio para matar, roubar e destruir”. Viu as moças das faxinas que estudavam no EJA, algumas cursavam Universidade à noite. Madalena abraça Janaína Caeté, suas meninas, primas e matronas da comunidade indígena na periferia sul e vizinha a fábrica de 5 mil empregos. Esbarraram alegremente em Diana Estevão e sua Côrte negra de princesas da Serra Preta – vestidas de branco, colares e turbantes.
Todas então concentradas para a saída. Nada do carro chegar. Decidem começar a marcha assim mesmo – noutros lugares o ato iniciara conforme o programado. Só que…
Estrondos sinistros, das ruas atravessadas e vindo pelo asfalto e calçamentos, dispararam para cima delas. Dezenas de motociclistas cercaram-nas no Bomfim, motocicletas aceleradas rasgando o vento com seus pipocos infernais. Motoqueiros jogavam bombinhas e rasga latas. Arremessavam sacos de urina, ovos e tomates. Avançavam com os braços e mãos, como podiam, para arrancar os cartazes e as faixas. Urravam que eram “feminazi”, “putas”, “o homem estava eleito”, que se acostumassem…
As militantes experientes pediam que fugissem organizadas do ataque covarde.
Ao longe, agentes da lei apenas observavam impávidos.
Nessa hora, Madalena sentiu que justamente ali, talvez pelo que acontecia na verdade, “ela descera” fora do previsto, de surpresa, pois não era exatamente “o dia”. Corou envergonhada, quase em colapso, no meio do tumulto dantesco. Temeu, aflita, que eles a vissem ensanguentada, a vaiassem ou fizessem coisa pior.
Contudo foram as companheiras que notaram, a cercaram imediatamente num círculo de proteção, em rede de apoio instantânea no caos infernal, falam quase ao mesmo tempo: “Tenho um absorvente”; “Não se preocupe, isso acontece, normal”; Ainda tem esses malditos”; “Fique bem, meu bem, vai dar tudo certo”; “Venham com ela para a capelinha”, “Tem banheiro!”, “Tenho uma roupa, ela se troca”; “Vamos! Vamos!”; “Venha querida, não chore!”; “Depois nos limpamos da sujeira desses dementes imundos…”
Então recuaram para dentro da Igreja deixando materiais procurando não dispersar como as senhoras guerreiras pediram. Não puderam retornar a Praça, ocupada pelos motoqueiros buzinando, dando cavalos de pau, que continuavam berrando o nome de seu candidato entre outras maldições e incendiaram as faixas e os cartazes delas. Uma hora depois, tudo acalmado, na medida do possível, elas foram saindo em grupos por medida de segurança. Em dezenas de cidades o ato foi um sucesso, em tantas outras, que nem a delas, não pôde ocorrer. Não saberiam quantas. “Madá” chegou em casa com a amiga da faculdade e recém-conhecidas que moravam próximas a ela.
Frustrada, roupa emprestada, do quarto os pais deram boa noite, respondeu tranquila, na Igreja tomara duas pílulas de maracujá! Apesar de “Leninha” suspeitar que teria gatilho
pelo futuro afora. Teve. Barulhos de motos; multidão reunida, passos rápidos nas ruas: tudo teria que ser ressignificado, retrabalhado. Nada, porém, que impedisse Madalena
Sofia de participar dos embates sucedâneos.
Durante a semana subsequente ao fatídico sábado, aliás, milita como nunca nas redes, ruas, na faculdade, esquinas e sinais, periferias e avenidas movimentadas. Não deixa de panfletar, palavrear onde podia. Numa noite, num ônibus lotado, quase que ela e dois amigos apanham de trabalhadores histéricos: “Comunistas e ladrões vermelhos!”
No domingo do primeiro turno, à noite, Madalena chora, fica toda roxa de stress, apavorada com o resultado. Suspira fundo, medita, começa a atuar nos grupos nas redes
e aplicativos para a próxima manifestação. O pior acontece, perdem a eleição.
Nos oito anos seguintes, “Madá” participaria de novos protestos. Lê a obra completa e vira gramsciana. Torna-se articuladora, agora sim, de um núcleo de organização comunista das múltiplas juventudes. Pintou o cabelo de vermelho, depois lilás, raspa todo há dois anos. Deixou-o crescer até abaixo da cintura, brilhoso e da cor graúna sedoso, recentemente. Fez muitas ações de cunho anticapitalistas, mobilizações e movimentos. Não larga a mão de ninguém, até no pior momento com a pandemia, até “ele” sair do poder. Defende sua pesquisa, “Neusa Souza e Frantz Fanon: Aproximações e Singularidades”, para a Banca. Torna-se fotojornalista da Midia Digital Alternativa, edita a Revista Amelinha para o Movimento Feminista em Rede, além de ser convidada para ser a mais jovem diretora da Fundação Cultural e Direitos Humanos Pedro Jerônimo.
Madalena Sofia agora sonha com a candidatura de uma mulher trans socialista mestiça trançada para Presidenta, que promova a escala 4 por 3; a ampliação das terras
indígenas e quilombolas; uma reforma agrária radical; discuta e articule nternacionalmente a quebra dos monopólios das plataformas digitais capitalistas até a
sua destruição. “Madá” almeja pelo fim da Saúde e da Educação privadas imediatamente.
Todavia, diante dela desenha-se, outra vez, é uma enorme tempestade formando-se no horizonte como se fosse a tormenta que não acaba jamais. Talvez seja assim, reflete.
Não importa!
Em seu coração bate que veio ao mundo para pelejar e respirar o bom combate.
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Edmilson Alves Maia Júnior (foto) nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG.
Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, instituição na qual é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc.
Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.


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