A Crônica do Edmilson Maia Jr.: “Nicéia à procura de Rocky”

Por Edmilson Maia Jr., professor, historiador e escritor:

– Não vá atrás de gato naquela fábrica véia abandonada, viu Nicinha?

– Obedeça a sua Vó Eunice, minha filha. O Rocky volta, se Deus quiser.

– Está bem, mãezinha, está certo vozinha, vou somente estudar na Aline.

“Rocky fugiu para aquelas bandas, que eu sei, procuramos em tudo.” Ia na fábrica, combinou na aula com a Line – ela não ia junto para não dar na vista, para dar cobertura.

Perto das duas horas da tarde, Nicéia, então, mentiu outra vez:

– Estou indo estudar na Aline. Chego já para cuidar da Nice.

A mãe Leonice abriu-lhe a porta para repetir:

– Continue sem tirar nota vermelha, boletim está bonito, volte logo e não
esqueça…

– Eu sei: nada da fábrica em ruínas que só tem entulho e caminhões estacionados.

– Nicéia – Vó Eunice reforçou indo até elas – vim olhar nos teus olhos. Está imundo, caindo aos pedaços, não conseguem vender. Cheio de bicho, vagabundos pousam. Nem parece eu na tulha mais Analice e Doralice, eu que botei elas para dentro. Muitos queriam, poucos entravam. Grata demais, foi a salvação quando enviuvei do Chico. Trinta anos de serviço, perdi a espinhela, fui varrer, aí os dedos doeram, graças a Deus. Criei tua mãe até ela fazer vestidos da Festa da Rainha do Algodão, né, Leonice?

– Queria ajudar a senhora logo que pudesse. A Dona Margarida foi um anjo, me botou na oficina dela, primeiro os fuxicos e retalhos, passei para os fios, com o tempo lascou a vista e as costas que nem a senhora. Mas foi só coisa boa, lembro da gente criança com as primas pulando nos montes de algodão chegando no teto do depósito medonho.

– Lembro de tu, mãezinha, na Singer Verde, de madrugada, na costura. Vou lá não.

– Não demore para cuidar da nossa bebezinha Nice, quero pregar logo hoje o retrato da Bisa Pretinha Berenice e preciso pintar a parede da sala que falta, minha filha.

Pretinha Berenice era sagrada ali. Veio, em 1906, da “Terra de Pretos”, para fazendas do algodão até lavar louça e roupa na cidade com local para ficar. Nem Vó Eunice a conheceu, restaram raras histórias e o misterioso vestígio no baú de relíquias da família: a fotografia que Leonice mandou emoldurar quando teve um sofrido dinheirinho extra. Na foto, a Pretinha Berenice altiva, a cicatriz no queixo, uma faixa vermelha.

– Mamãe te ama, mamãe te ama! – disse Niceia, abraçando as duas e partiu.

Foi como quem ia rumo a rua da Aline a meia hora dali. Na primeira esquina, em que não poderia continuar sendo pastorada pela mãe e a avó, desviou em direção ao Pavilhão. Em quinze minutos ficou diante a estranha passagem escancarada há meses para quem quisesse entrar. Ao longe o estacionamento de caminhões que entravam em diversos horários pela entrada sem vigia e ela viu só um caminhão e uma rede esticada nos enormes pneus. Nicéia atravessou a abertura as duas em ponto. Havia um calçamento direto, à sua direita, onde os caminhões seguiam. A sua esquerda era vegetação por cima de pedras, contornos, colunas: “Rocky iria por ali”. Foi pelas folhas e destroços distanciando-se do caminho pavimentado e da entrada. Notou resquícios recentes reunidos pelo chão: pratos e copos de plástico, cinzas de cigarro, garrafas e latas vazias, lençóis estendidos, mantas espalhadas, restos tipo uma fogueira. Nada de gato, cães nem ninguém. Chamou:

– Xane, xaninho, Rocky, Roquinho, xane, xane, xane, vem Rocky!

Pareceram ruídos na antiga Casa das máquinas, recordou do Mestre “Caprichoso”, o carroceiro de água de um braço só, que de costume passava na casa da Vó prosando. Ele que botou primeiro o Vô Chico, depois a Vó Eunice, para dentro da fábrica. Ao menos duas vezes no ano, ia era com um garrafão de vinho para beber com a Vó num domingão próximo ao aniversário de um deles. Aí tome causos. Mestre “Caprichoso” sabia tudo do lugar. Iniciava que essa época que era bom, fugiu das lavouras onde o povo das 5 da manhã às 6 da noite tirava o algodão para as carretas lotadas chegarem. A multidão sonhava entrar nas fábricas e ele conseguiu! Teve um dia que o capataz Zé Vermelho açoitou um que queria roubar na balança do algodão.

Continuava dizendo que quem era brabo amansava ligeiro trabalhando por quatro de dia e noite. O “Mestre” contava dos resíduos, do beneficiamento inteiro do tal ouro branco,
ele se metia até no cozinhamento do caroço para virar óleo e torta. O ex-operário ajeitava os dentes das serras rotativas, das ranhuras do descaroçamento; a cardadeira e a
prensa dos fardos. Quase no fim narrava da descaroçadeira que comia o algodão. Ela
abocanhou seu braço e um helicóptero o levou para o hospital: patrões aperreados dele
morrer esvaindo em sangue.

– “Moço Velho” é dessa época – interrompia nessa hora a Vó e ambos choravam.

O velho carroceiro, embriagado, sempre finalizava os causos da mesma maneira:

– Só sobrou a poeira tomando conta de tudo, Comadre Eunice.

Distraída, Nicéia quase cai na tulha funda onde as mulheres curvadas, por horas a fio, retiraram fragmentos, cascas, matinhos, impurezas; limparam as plumas sugadas
violentamente por canos. Na borda da piscina de areia e folhas, onde Vó e irmãs mergulharam um dia no mar de algodão, gritou pelo gato a última vez. Não conseguia enxergar a abertura as suas costas, engolida por escombros, galhos coloridos e sobras acumuladas a cercando. Então, a catedral do progresso devoradora de gente despertou: imaginou tempestade de fumaça ensurdecedora febril, os uivos da sirene, o algodão descarregado vigiado e pesado, a plebe entrando sob comandos da capatazia, máquinas trovejando assustadoras, caldeirões borbulhando, prensas gemendo incessantemente, estilhaços de metais dilacerantes. A pele arrepiou, olhos marejaram, Rocky estava longe ou morto, hora de voltar. Chegou na encruzilhada de destinos, ouviu uma voz atrás dela:

– Por ali não, menina! Tem cobra, maribondo, escorpião, pode ter bicho homem.

– Certo, viu um gatinho cinza de um olho verde e outro azul? Chama Rocky.

– Gato, cachorro, tem de tudo aqui. Agora está deserto. À noite fazem a festa. Na semana botarão portão, cadeado, só caminhão vai entrar. Qual tua idade? Cadê teus pais?

– Pai sumiu, mãe, avó, irmãzinha estão em casa esperando. Faço 13, mês que vem.

– Vá simbora e seja feliz, Pretinha Nicéia!

Correu. Já longe, esbaforida, pensou: “A Line não vai acreditar quando eu contar”.

*** ***

Edmilson Alves Maia Júnior nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG. Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, onde é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc. Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.

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