Por Edmilson Maia Jr., professor, historiador e escritor:
Tia Vivian até escondeu bem o exemplar debaixo dos jeans no guarda-roupa.
Todavia, aos 12 anos, Leon desvendou o mistério num fim de tarde abrasonado ao adentrar aquelas memórias de dor e sangue em busca de Verdade e Justiça. Leu dos choques e valentia de pessoas por quais chorou, orou, solidário, perplexo. Novelas, quadrinhos, filmes, os conselhos e histórias do pai, da mãe, tios, as idas à Missa misturar-se-iam à “Casa dos Horrores”, “Pau de Arara”, Guerrilhas, à Chacina da Lapa; a Bergson, Dinas, Jana, Osvaldão, às Organizações, tantas siglas, ao prefácio de Dom Paulo Evaristo Arns no livro encarnado de figura em tormenta, Prometeu acorrentado, na capa.
Já sabia, portanto, o que era o Araguaia quando Véu pediu para que ele escolhesse entre o novo LP da Legião ou a máquina de escrever: um presente do primeiro emprego, do primeiro salário, que a irmã tinha conseguido. Leon não pensou duas vezes, para a cara de surpresa da mana, e respondeu de bate pronto: “Quero ganhar o Que Pais é Este, Véu!”
A faixa-título troava no carro de som do Sindicato parceiro para engendrar as passeatas juvenis pela meia e contra os aumentos da passagem, das mensalidades, contra Governos. Itinerários dos seus embates e conquistas espelhando outros tempos. Seguiam passando de colégio em colégio convocando. Aurora e Juca sempre à frente, ele ouvia quando se apresentavam, a retórica bonita, inflamada. Agitavam com microfones e gestos de mão em cada Praça e Avenida tomadas pela multidão estudantil em revolta no Centro.
Então veio a noite mágica, encantado pelo que acreditava infinitamente precioso. Foi num dos intermináveis dias em que a mãe o mandava estudar, para dessa vez passar no vestibular. Quando atravessou a cidade para revisar matérias em que era mais fraco, perto das provas. Após a tarde de leitura na Biblioteca Pública, foi comer batatinha, com ketchup e maionese no meio do saquinho, fazer hora para pegar o ônibus vago para a sua periferia.
No trajeto, pela dupla via de Universidades e Escolas, Leon viu o Bar na esquina movimentada, em penumbra rubro-negra, iluminado à luz de velas. Olhou, hipnotizado, as mesas cobertas por mantas escarlates, flâmulas carmesins e bandeiras afogueadas nas paredes e colunas. Diversas fotografias em preto e branco de jovens sorrindo espalhadas pelos cantos. Na cabeceira, reconheceu Aurora cantando, cigarro numa mão, copo de cerveja na outra, olhos verdes marinhos transbordantes, serena, contemplava o horizonte, reverenciando seus mortos. Viu Juca indo lá para dentro, foi pegar o que parecia um vinil.
Todos no bar lotado, sentados ou em pé, entoavam, com um casal ao centro com um bebê, a mãe do neném era quem puxava:
− “Xambioáááá!”
Já estava perto das 8, cambão tranquilo, hora de voltar para casa no Conjunto. Reencontraria Aurora, candidata a vereadora, quando ele entrou na faculdade após acertar três questões obrigatórias para o perfil da prova de física: uma questão resolveu porque sabia desde a época do Colégio no Centro; outra foi no bamba; a fórmula decisiva da terceira aprendeu na Biblioteca no dia que Mãinha encheu o saco dele para ir estudar.
Agora, Leon rememora da noite mística, daqueles dias de luta, do que ocorreu de fato entre os automóveis e barulhos urbanos, inebriado pela sinfonia de vermelho, das trevas e o sol reunidos com a lua. Como foi tudo aquilo? Até onde operava a fantasia resultado da sua imaginação militante, apimentada paixão em chamas?
Pesquisou que Itamar Correia compôs e gravou “Xambioá”, canção, LP, em 1984.
Soube também que Juca foi atuar na Venezuela. Nunca mais o viu.
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Edmilson Alves Maia Júnior nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG. Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, onde é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc. Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.


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