Por Edmilson Maia Jr., professor universitário, historiador e escritor:
– Não vou sabotar ninguém não, pessoal! Também estamos aqui para recolher material para o documentário dos gigantes no Vale dos Monólitos, Alcioneu! – prometia Pedro Caramelo, enquanto sentavam-se à mesa da Padaria super sortida da cidade.
– Reflitamos apenas que nem todo gigante tem a ver com a terra plana. Pode ter e pode não ter, é uma hipótese ainda… Eu acredito em terra plana? Lógico que sim, já conversamos muito sobre isso, nem estaríamos nesse lugar se não acreditasse. Porém, gigante é uma coisa, terra plana é outra. A terra não é plana por causa de gigantes,
enfim.
Com tais palavras, Pedro visava, portanto, dirimir rusgas entre os quatro aventureiros que chegavam de jipes e motos, sob chuva rala esvaindo, no Sertão. Encontravam-se pessoalmente após infinitos likes e views, frenéticos directs, chats e zaps.
– Mas está parecendo que você não está acreditando é na Bíblia, sabia? – retrucou Alcioneu – Porque na Bíblia tem terra plana e gigante, você reconhece? Senão, fica muito difícil continuarmos o projeto, essa nossa parceria estratégica, Pedro, sinceramente…
– Vejam bem: teremos um documentário da terra plana acatando cada visão, serão quatro pontos de vista imparciais, e conversados, pela verdade científica. Então, quando for exibido e salvo no canal, eu não vou desinformar acerca de gigantes, se metendo, entenderam? Eu acredito nos gigantes, sim, Alcioneu! Apenas não devemos embaralhar as coisas, cada temática é dissecada por quem entende do assunto e na hora adequada.
– O Elder aqui, por exemplo! Ele compreende do domínio do plasma pelo povo oculto no subsolo há centenas e centenas de anos, milênios. Eu não me meto nisso, acho “pica” e vejo no canal dele, aprendendo, estudando o plasma, a comunidade que manipula o magma, o núcleo da terra, e tal. Idem são os gigantes, quem entende de gigantes não sou eu, então eu não vou falar disso. – Pedro Caramelo esmiuçava seus argumentos.
– Não faremos vídeos de casos sem se relacionarem, sacam? Nem todo monólito é prova de gigante. Vislumbramos uma rocha grande e é um gigante? Talvez! Mas pode não ser, né? Não devemos acreditar em tudo visto ou transmitido, devemos ser lúcidos pelo bem do nosso público também, não sejamos iguais aos comunistas idólatras.
– Por falar nisso, Pedro e pessoal, temos boas chances de encontrar indícios de homens-lava nas formações rochosas daqui. Assisti vídeos na net antes de nossa viagem. Investiguei bem em sites e perfis alternativos. Não tem tanta profundidade, mas cabe a nós preenchermos essa lacuna, não é? – entusiasmou-se o Elder, que sonhava com um futuro documentário tratando da civilização subterrânea vulcânica na era pós-diluviana, da sociedade dos seres-lava que não coexistira com os ciclopes e demais ogros, defendia.

– Sabe que tem na Bíblia, né? Gigante e terra plana tem na Bíblia, tu sabes, não é, Pedro? – voltou à carga o Alcioneu.
– Claro que sim, cara! Eu li a Bíblia várias vezes! A Bíblia prova a terra plana e a existência dos Nefilins. A questão é que nem todo gigante tem a ver com terra plana, eu esclareci. Terra plana é… Como eu expus, não podemos ser dogmáticos, teimosos nem intransigentes com as discussões. São pontos de vista e facetas, camadas, na busca do conhecimento. Terra plana é uma, gigante é outra. Tem gigante, mas não vou botar isso como se fosse uma prova de terra plana. Respeitemos as pessoas que acompanham nossos canais, temos um dever a cumprir. Sejamos responsáveis. – Caramelo enfatizou.
– Enfim, não se preocupem que eu não vou zoar com o canal de ninguém. Serão quatro abordagens únicas, sólidas. Eu vou fazer uma live fechada para nós quatro. Aí a gente vai decidindo o que é que cabe, o que é que não cabe em cada take. Explica bem direitinho da terra plana. Narra dos seres de lava. E expõe a verdade sobre os gigantes,
adoro os gigantes, vai ficar denso! E chamará bastante atenção sem exageros. Depois virão as várias lives de cada assunto, polêmicas, curtidas, comentários, geral compartilhando, saudáveis divergências e o quebra-cabeças montado por cada um.
– Agora senti que entendeste que os gigantes são importantes, porque muita gente não respeita os Nefilins. Só estou defendendo que gigantes são formidáveis de serem investigados, e os tais acadêmicos não comentam, deveras lamentável, isso incomoda. Os que mencionam são acuados, o establishment, o sistema censura logo. Bom que você está dizendo ok quanto aos Nefilins. Fico muito feliz, sabem? – Alcioneu comemorou.
– São milhares e milhares de fósseis que a tal da comunidade cientifica vem descobrindo há não sei quanto tempo, sabiam? Distorcem e citam inúmeras criaturas, inventam elos perdidos, animais bizarros. Negam a veracidade dos fatos: a quantidade de gigantes existentes – desabafou Alcioneu, concluindo. E já imaginando manipular inserções de Galactus, Thanos, Senhor dos Anéis na sua película, numa edição vertiginosa a favor da existência dos gigantes: filhos dos anjos caídos com as mulheres dos homens.
– Nem me fale. Os especialistas mentirosos espalham fake news desde sempre.
– Desmontaremos essas farsas, daí estarmos aqui, meu irmão. Desmantelaremos essa rede de falsidades. Defenderemos os fatos. Nunca faria nada contrário, meu caro. Fundamental abordar gigantes, só não forçaremos teorias, o recorte é diferente. Teremos seu olhar do tema. Não nos igualemos aos tais especialistas que distorcem as evidências no pacto com os Illuminati à serviço da ditadura anticristã: semeadores de conspirações, malditos seguidores de Gramsci e do marxismo cultural. Tamu junto na missão. Colou!
– Será uma empreitada histórica e inesquecível o que faremos aqui. Nada é por acaso. Nem nosso colóquio. Por isso é bom nos dirigirmos agora mesmo para o Lago dos Pedregulhos para realizarmos as primeiras tomadas – arrematou Claus, o cinegrafista, tido como o mais equilibrado do grupo, e que abarcava ser possível adir na mesma narrativa os homens-lava, os Gigantes, a Terra Plana e Extraterrestes. Por que não, afinal?
– Pau nos Especialistas! – Claus puxou a divisa que os unia.
– Pau nos Especialistas! – ressoaram, gritando em coro, os quatro, assustando a pacata freguesia da Panificadora que ficou sem entender direito o que proferiam aqueles rapazes munidos com vários instrumentos eletrônicos digitais conectados, e de mochilas, chapéus, bolsas e cantis, como fossem jovens discípulos de Indiana Jones no século XXI.
Pagaram a conta, após vitaminas, sucos, capuccinos, café preto com pães de queijo, baurus, e omeletes de ricota com espinafre e beringelas à milanesa. Pegaram a pista rumo ao horizonte da Avenida Principal. Nela refletia, nos dois lados, em todo o seu esplendor, nas calçadas, vidraças, portas e janelas molhadas, o fulgor extraordinário laranja-avermelhado do começo do fim de outro dia naquele canto do mundo, cercado de rochas estranhas e simbólicas, na brevíssima Era dos humanos no Planeta Terra.
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Edmilson Alves Maia Júnior nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG. Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, onde é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc. Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.


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