Por Tuty Osório:
Quando li uma crônica de Raymundo Netto pela primeira vez fiquei confusa. Afinal, sobre o que diabos este cara está falando? Rapidamente me encontrei com o seu estilo múltiplo, um estranhamento aliado de uma contação envolvente. Raymundo narra a magia real sem pretensões de arauto, com a mesma desenvoltura tímida com que se desloca por ambientes onde, com certeza, é uma celebridade.
Jornalista, cronista, contista, romancista, dramaturgo, sei lá que letras mais, os trocadilhos para falar dele e de seus livros não são frases elaboradinhas para impressionar. Cabelos compridos, pai de família, aventureiro trabalhador, sobretudo escritor, exímio contador de histórias. E vamos combinar que escrever de verdade exige muita contradição. Falo de escrita. Não de marketing.
Indicado e laureado com variados prêmios, fato que pra mim é igual ao litro (expressão portuguesa para dizer que não significa nada) no caso de Raymundo coincidem o talento e as premiações. Não sou ingênua e sei que esses certames literários são legitimadores da importância que o público dará à obra. Por covardia ou arrogância sou muito arisca aos concursos, porém, separei alguns para exercitar a exceção.
Quero deixar claro que o caso de Raymundo Netto é diferente. É um famoso, na bolha e fora dela, que admiro. Estou organizando o hábito de ler sempre a sua produção jornaleira e blogueira. Seu último livro, uma reedição lindinha de uma saga contada originalmente por volta de 2004, não é o relato das conversas de calçada. Porém, é sobre um tempo em que toda a Fortaleza conversava em cadeiras dispostas do lado de fora das casas. A Jacarecanga era um bairro chique, a Praia de Iracema, desabitada, era o Açude do Boris, e a Aldeota ainda era o início de uma aventura.
Amei essa viagem. Espiar o passado pelo olhar de um estudioso que sabe tornar os nossos próprios olhos férteis. Ávidos pela próxima linha. Paga ingresso porque é de bom tom comprar o livro e eu não empresto o meu. A não ser para algumas amigas que andam meio comprometidas em dívidas e gostam muito de livros. Brincadeiras à parte, topem esse rolê guiado pela literatura despojada do Raymundo.
Lucinha, mãe de Cazuza, diz que só as mães são felizes. Eu concordo com ela. Acrescento: quem ama ler, também.
UM CONTO NO PASSADO, CADEIRAS NA CALÇADA, por Raymundo Netto, Fundo de Quintal, reeditado em 2025 – compras ON LINE e presenciais, nas melhores casas virtuais e físicas do ramo ou diretamente com o autor no seu Instagram.
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Tuty Osório é jornalista, especialista em pesquisa qualitativa e escritora. São de sua lavra
QUANDO FEVEREIRO CHEGOU (contos de 2022);
SÔNIA VALÉRIA, A CABULOSA (quadrinhos com desenhos de Manu Coelho de 2023)
MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE MARIA AGUDA, dez crônicas, um conto e um ponto (crônicas e contos, também de 2023).


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