Por Ana Márcia Diógenes, jornalista e escritora:
Quando criança, nunca gostei de brincar de jogar pedra em lagartixa ou calango para cortar o rabo deles. Detestava ver meninos dizendo que iam brincar de “pedra ao alvo” com gatos em cima de muro. E nem queria ver ninguém abrindo sapo para saber o que tinha dentro. Sequer gostava de ver pássaros engaiolados. Me colocava no lugar de todos eles. Imaginava se fosse eu ou qualquer pessoa a sentir dor, medo, a morrer, só porque alguém “malino” assim o quis.
Os episódios com animais mortos ou sequelados desses últimos dias no país – Orelha, Abacate e vários outros que viviam nas ruas e eram adotados por comunidades – trazem quatro elementos que despertaram minha atenção: banalização do ser vivo, ódio, como alguns pais reagem e como a sociedade reage.
Na banalização da vida de qualquer animal, está a soberba, o sentimento mesquinho de superioridade da força e do poder humano que despreza a vida que há nas outras espécies. Não importa o tamanho, não importa se não há um único dono. O que deveria prevalecer é o reconhecimento das diferenças e na vida que há em cada espécie. Vida que se quer para si e que o outro tem direito também.
O ódio é como uma pele interior onde se formam atitudes de presunção desta tal superioridade que é sentida e alimentada por alguns. Pele que engrossa nas maldades que fazem o limite se perder, seja estimulado por plataformas como Discord (que chantageia pessoas a cumprir desafios sórdidos) ou por acúmulo de ilícitos morais que familiares e professores não percebem ou não combatem antes que se consolidem no caráter.
Aliás, é imprescindível que pais acompanhem variações de atitudes de seus filhos desde a primeira infância, para que atitudes não recomendáveis sejam evitadas. Sabemos que nem sempre este cuidado se estabelece. Mas, o que todo o país viu foi adolescentes ganharem viagem à Disney depois de torturarem um cachorro. O que nos leva ao questionamento sobre o bom senso da família, o (des) ensinamento ao respeito que a vida requer.
E chego à reação da sociedade. A onda de protestos – manifestações presenciais e nas redes sociais, pessoas dizendo que estavam recebendo ameaças de processo e outras fazendo o bastão da denúncia continuar de mão em mão – mostra que atitudes assim não são e não serão aceitáveis.
É importante que pais conversem com suas crianças e adolescentes sobre este ato, que as escolas iniciem o ano letivo com esta pauta de reflexões, que todos nós pensemos na dor de qualquer ser – humano ou não – como um sofrimento que poderia ser na nossa pata, na nossa asa, no nosso pelo, no nosso focinho.
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Ana Márcia Diógenes é graduada em Comunicação Social (UFC), especialista em Responsabilidade Social e em Psicologia Positiva e mestra em Planejamento e Políticas Públicas. É professora de Jornalismo (pós-graduação), escritora e consultora em comunicação e direitos para a infância e juventude.

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