Por Ana Márcia Diógenes, jornalista e escritora:
Dentro do provador de uma loja de conserto de roupas escutei um diálogo a princípio triste, mas que minha imaginação tratou de alongar com um fechamento que eu quis que fosse alegre. Coisa de escritora querendo ficcionar o cotidiano.
Uma costureira perguntou à colega de máquina de costura quando ela havia perdido a mãe. “Eu ainda ia completar seis anos, foi um dia antes do dia das mães”. “Puxa, verdade? Também era criança quando perdi a minha bem pertinho do dia das mães”.
Saí do provador, recebi a nota com o valor e a data de voltar para pegar a roupa. A conversa seguiu junto comigo. Uma coincidência duas pessoas, que trabalham lado a lado, terem perdido, ainda na infância, as mães tão próximo a uma data marcante.
Resolvi imaginar que, quando eram meninas, elas tentaram costumar roupas para suas bonecas a partir de uma roupinha que as mães teriam feito para elas. Uma forma de manter a mãe por perto, mesmo sem estar. Erraram algumas vezes, acertaram outras, foram tomando gosto. Passaram a pedir tecidos de presente, a olhar vestidos com molde em revista de moda. Insistiam com as tias e as vizinhas para usar as máquinas de costura delas. E, um dia, perceberam que tinham jeito para a coisa e um ofício nascido da saudade.
Esta crônica metida a ficção é sobre ressignificar as perdas. E também sobre como a vida acaba colocando, perto da gente, pessoas que vivem/viveram situações similares.
Talvez seja o destino aparando arestas das nossas dores, junto com as dos outros, para a gente se encaixar no cotidiano das formas possíveis.
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Ana Márcia Diógenes é graduada em Comunicação Social (UFC), especialista em Responsabilidade Social e em Psicologia Positiva e mestra em Planejamento e Políticas Públicas. É professora de Jornalismo (pós-graduação), escritora e consultora em comunicação e direitos para a infância e juventude.


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