Artigo: “A mensagem que chegou depois da reportagem – ‘Tô virando um zumbi'”

Thiago Domenici | Pulitzer CenterPor Thiago Domenici (foto ao lado), jornalista, diretor da Agência Pública:

Quero falar com você hoje sobre uma mensagem que recebi após uma reportagem sobre o poder destrutivo das bets. 

Mãe de duas filhas, ela podia ser qualquer uma das milhares de pessoas que, nos últimos dias, leram as reportagens do especial Jogo Perigoso: o Brasil das Bets e reconheceram nelas a própria vida. Ela tinha lido a história de Vânia, a professora de Uberlândia que perdeu o filho Rafael, aos 26 anos, esmagado pelo vício em apostas online. 

Conversamos por algum tempo. Ela me contou que não dormia nem comia. Que a cabeça não parava de rodar em torno das contas, como uma roleta que ninguém consegue travar. “Tô virando um zumbi”, escreveu, e eu fiquei um tempo olhando para a frase, porque zumbi é isso mesmo: alguém que continua andando depois que a vida foi embora. Ela trabalhava, cuidava dos filhos, sobrevivia num misto de revolta, vergonha e angústia. E, por dentro, somava dívidas que não me contou desde o início.

Começou como quase todo mundo: uma influenciadora famosa ganhando nos stories, um jogador de futebol conhecidíssimo dizendo que é possível, o bônus de boas-vindas, uma rodada grátis. O resto veio na sequência conhecida — o limite do cartão, o empréstimo, o dinheiro guardado para o futuro, o agiota. Mais de 100 mil em apostas desde então, revelou. Quando a família descobriu, se afastou. “Eu não julgo”, ela me disse. “Eu os decepcionei.” E depois, numa mensagem no meio da tarde, desabafou: “Só queria que as pessoas soubessem que não fiz isso por falta de amor.”

Não foi mesmo por falta de amor. A ludopatia é uma doença reconhecida, catalogada e tratável. Mas o Brasil a trata como fraqueza moral, e é nesse silêncio envergonhado que ela cresce. A engenharia, somada à publicidade agressiva, a sugou no primeiro clique de curiosidade. Um modelo de negócio feito para viciar e enganar. Mas se a influenciadora mais seguida do Brasil ganhava ali, por que seria mentira? Ela não apostou num site: apostou em gente que admirava e que empresta credibilidade a um golpe que virou um problema de saúde pública. Quando perdeu tudo, ela escreveu à empresa pedindo socorro e recebeu silêncio. “Eles não se importam”, resumiu ao enviar uma propaganda com esses dois influenciadores chamando-a para jogar novamente. E depois, com uma raiva triste que era quase um alívio, comentou: “Vania tem razão, eles [influenciadores] também são culpados.”

É isso que o especial da Agência Pública vem mostrando desde junho, numa investigação financiada inteiramente pelos nossos Aliados, sem um centavo das bets. Mostramos que não é azar, é de propósito: as plataformas usam inteligência artificial, design e psicologia para monitorar o jogador em tempo real e recalibrar suas chances, sempre a favor da casa. Mostramos o modelo de negócio que remunera influenciadores com comissão sobre as perdas de quem clica em seus links — quanto mais o seguidor perde, mais o ídolo ganha. Mostramos quem, no Congresso Nacional, trabalha para que nada disso mude, a “bancada das bets”. Mostramos como se compra uma bet ilegal e como as casas de apostas escapam à fiscalização federal por meio de licenças estaduais. 

E as reportagens começaram a mover as engrenagens. Depois que a história de Vânia e Rafael emocionou leitores pelo país, a deputada Dandara Tonantzin (PT) protocolou o PL Rafael, que quer proibir a comissão sobre perdas e responsabilizar toda a cadeia de divulgação das apostas — influenciadores, afiliados, plataformas. Outro projeto quer obrigar as bets a avisar o governo quando detectarem apostadores em situação de risco. Também foi instaurada uma investigação federal por indução ao suicídio, com base no caso de Rafael, que cita oito plataformas. O Ministério da Justiça foi acionado para investigar a publicidade dessas empresas. “Graças a Deus está surtindo efeito”, resumiu Vânia.

Mas o efeito que talvez mais importe não cabe no número do projeto de lei. A mulher que me escreveu naquela noite fez, dias depois, algo que descreveu como a decisão mais difícil: pediu a exclusão da própria conta na plataforma e a autoexclusão no site do Governo Federal. Mandou o print do e-mail de confirmação como quem mostra um atestado de sobrevivência. “Eu sempre ficava esperando uma rodada grátis, um bônus”, explicou. “Mas acabou.”

Ela agora tenta os caminhos que existem — e que nem todos ainda conhecem. Os Jogadores Anônimos, que acolhem sem cobrar nada além do desejo de parar. O teleatendimento do SUS para vício em apostas já registra dezenas de milhares de atendimentos. 

As apostas já movimentam 1% do PIB e comprometem um quinto do orçamento livre das famílias mais pobres. Atrás de cada ponto percentual há alguém que não dorme, alguém que esconde o celular, alguém que jura que amanhã para. Há mães que perdem filhos e filhas que perdem tudo, menos a vergonha — essa fica.

No nosso último papo, ela me contou que segue de pé. Já sabe o endereço do grupo de apoio, o dia e o horário da primeira reunião. Trabalha, cuida de quem ama, diz que não joga mais. O desespero ainda ronda porque a dívida não se desinstala como um aplicativo. Ela tem medo de que cortem a luz de sua casa por atraso de alguns meses. Mas há uma diferença entre a mulher da primeira mensagem e a de agora: uma não via saída; a outra começou a caminhar. 

Compartilhe o artigo:

ANÚNCIOS

Edit Template

Sobre

Fique por dentro do mundo financeiro das notícias e opiniões que rolam no Ceará, Nordeste e Brasil.

Contato

contato@portalinvestne.com.br

Portal InvestNE. Todos os direitos reservados © 2024 Criado por Agência Cientz