Por Nelson Lins, empresário:
Em 2025, o Brasil registrou 546.254 afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica do INSS, com crescimento de 15,66% em relação ao ano anterior. Os casos de burnout praticamente triplicaram no período e acumulam expansão superior a 800% nos últimos quatro anos. São números que deveriam provocar uma revisão profunda na forma como as empresas enxergam saúde. Mas o que ainda acontece, na prática, é diferente: grande parte das organizações continua tratando o esgotamento como um problema exclusivamente individual.
Existe uma narrativa muito conveniente para o mundo corporativo: a de que burnout é uma questão de resiliência pessoal. Que o profissional que adoece “não soube se organizar”, “não pediu ajuda a tempo” ou “não cuidou da própria saúde”. Esse discurso transfere para o funcionário a responsabilidade por uma condição que, na maioria dos casos, é produto direto do ambiente em que ele trabalha. Metas inatingíveis, jornadas sem fronteiras, culturas que premiam o excesso e lideranças que confundem disponibilidade com comprometimento. O problema, quase sempre, não está no profissional. Está no modelo.
Acompanho de perto essa dinâmica há mais de uma década, observando o comportamento de centenas de milhares de pessoas em relação à própria saúde. E uma coisa ficou evidente: as pessoas não adoecem por falta de informação. Elas adoecem porque estão inseridas em ambientes que consomem muito mais do que repõem.
O paradoxo da alta performance
Há uma contradição que o mundo corporativo ainda não resolveu: empresas que exigem alta performance, mas ignoram saúde mental, comprometem exatamente aquilo que querem maximizar. Do ponto de vista neurológico, o estresse crônico reduz concentração, tomada de decisão e criatividade. O cérebro deixa de operar em performance e passa a operar em sobrevivência. Não existe resultado sustentável nesse estado e os números já refletem isso.
Uma pesquisa do Wellhub revelou que 89% dos líderes brasileiros já reconhecem que problemas de saúde mental aumentam os custos das empresas. Mesmo assim, a maioria ainda responde ao sintoma e não à causa. Bem-estar não é benefício periférico. É variável de resultado e quem ainda trata como opcional está deixando dinheiro na mesa enquanto vê talentos saírem pela porta.
A virada regulatória que chegou
O cenário mudou estruturalmente em maio de 2026, com a entrada em vigor da nova NR-1. Pela primeira vez, o Brasil passou a exigir que empresas identifiquem, avaliem e gerenciem formalmente riscos psicossociais, como sobrecarga, metas abusivas, jornadas sem pausa e ausência de autonomia, dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos. O descumprimento agora gera autuações, multas e passivos trabalhistas.
Essa virada regulatória é necessária. Mas ela sozinha não transforma cultura. O que muda cultura é quando a liderança para de enxergar bem-estar como projeto de comunicação interna e passa a tratá-lo como decisão de gestão.
Existe uma distância enorme entre a empresa que oferece uma palestra de mindfulness por ano e a empresa que revisa carga de trabalho, monitora indicadores de saúde e forma líderes para identificar sinais de esgotamento antes que virem afastamento. A primeira constrói aparência. A segunda constrói resultado.
Pequenos hábitos, grandes impactos
Uma das principais descobertas do campo do wellness nos últimos anos é que pequenas mudanças consistentes têm mais impacto do que grandes intervenções pontuais. Isso vale para a saúde individual e vale igualmente para a cultura organizacional. Uma empresa que normaliza pausas, que respeita horários, que não trata o descanso como improdutividade, já está construindo algo diferente do que a maioria.
Um estudo recente publicado no British Journal of Sports Medicine identificou que uma caminhada de cinco minutos por hora no ambiente de trabalho reduz significativamente a fadiga cognitiva e melhora o engajamento diário dos profissionais. Sem custo. Sem estrutura especial. Apenas uma mudança de mentalidade sobre o que significa, de fato, trabalhar bem.
O que impede essas mudanças não é falta de recurso. É crença. A crença, ainda muito presente no ambiente corporativo, de que produtividade se mede em horas disponíveis, e não em qualidade de entrega, capacidade criativa ou longevidade no cargo.
Bem-estar é estratégia e os números provam
A economia global do wellness já movimenta cerca de US$2 trilhões por ano, segundo a McKinsey. Esse crescimento não é tendência passageira. Ele reflete uma mudança profunda e irreversível de comportamento: as pessoas passaram a enxergar saúde como investimento contínuo, não como ausência de doença. E essa mesma lógica precisa chegar, com urgência, ao ambiente de trabalho.
As empresas que entenderem isso primeiro, não apenas no discurso, mas nas suas práticas reais de gestão, serão as que vão reter melhor, engajar mais e performar de forma sustentável ao longo do tempo. Burnout não é um problema individual que a empresa precisa acolher. É um sintoma organizacional que a empresa precisa tratar na origem.
Enquanto o diagnóstico errado persistir, os números vão continuar crescendo. E o custo, financeiro e humano, também.

Fique por dentro do mundo financeiro das notícias e opiniões que rolam no Ceará, Nordeste e Brasil.