Da Agência Pública: “Contra o medo, jornalismo”

Aventou-se no Supremo Tribunal Federal a possibilidade de se rediscutir a obrigatoriedade do diploma de nível superior para o exercício da profissão de jornalista.

Não se trata apenas da discussão comezinha no Judiciário, mas de um gesto que revela que o STF – guardião da Constituição, como se diz – admite ter errado ao convalidar decisão de uma juíza de instância inferior, numa articulação do PSDB e de donos de empresas de comunicação e eliminar a importância da educação para a formação de trabalhadoras e trabalhadores envolvidos com o pensamento, a inteligência e o básico direito do cidadão à informação qualificada.

Quando o STF bateu o martelo sobre o assunto, com a indevida e grosseira comparação feita pelo ministro Gilmar Mendes de que jornalistas são como chefes de cozinha, que não carecem de educação formal para serem competentes ou eficientes, abriu-se a porteira para uma legião de arrivistas e criminosos que hoje, como era de se esperar, põem em risco a Democracia e as instituições que a mantêm.

A propósito disso, considerando que as análises públicas podem ganhar corpo a partir de uma guinada expressiva das regras do jogo, trazemos o texto abaixo. A essência é importantíssima.

Bruno Fonseca | Pulitzer CenterPor Bruno Fonseca (foto ao lado), jornalista, chefe de Redação e editor na Agência Pública:

Outro dia, na redação, enquanto falávamos da cobertura eleitoral, a editora Mariama Correia mencionou uma palavra: medo. Ela se referia a como os políticos que disputam uma vaga nas eleições deste ano vão mobilizar essa emoção tão humana para tentar conquistar suas cadeiras no Parlamento e nos Executivos.

Isso porque os brasileiros e as brasileiras têm medo. Segundo pesquisa do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, os gatilhos que disparam a insegurança na população são vários, e ao mesmo tempo, tão corriqueiros, que acabamos naturalizando em uma sociedade tradicionalmente violenta como a nossa.

Medo de golpe ou de perder dinheiro na internet. Medo de ser assaltado ou de ficar na mira de uma arma de fogo. O medo de perder a vida em um assalto. De ter o celular roubado. Essas são as preocupações que mais pontuaram na pesquisa feita com mais de 2 mil pessoas de 16 anos ou mais, em mais de 130 municípios do Brasil.

O medo também tem muitas camadas: mulheres, por exemplo, têm mais medo que os homens. Elas pontuaram mais alto em todas as respostas na pesquisa, não apenas nas relacionadas a crimes sexuais, mas também nos medos do dia a dia, como furto de celular ou de ter a casa arrombada. Vale lembrar que mulheres são a maioria do eleitorado, e também um grupo decisivo sobretudo na disputa presidencial, como há muito já perceberam as campanhas de Flávio Bolsonaro e Lula, apesar das suas dificuldades e limitações para tratar com elas.

Cidadãos negros, LGBTQIAPN+, indígenas, moradores de periferia, pessoas com deficiência ou em situação de rua também experimentam medo de formas diferentes a partir do acesso que têm — ou não têm — à Segurança Pública e à Justiça.

A resposta mais fácil dos políticos para o medo costuma ser falar mais alto, falar mais grosso. Há décadas, candidatos prometem mais punição, mais brutalidade, para resolver a insegurança no Brasil. Políticos de extrema-direita em particular têm se beneficiado dessa plataforma do “matar ou morrer”, misturando as inseguranças legítimas da população a bravatas enérgicas e repetitivas que nunca se questionam sobre quem fica do outro lado da mira — e dos muitos casos de injustiça que essas ações cometem.

Por outro lado, os candidatos progressistas têm uma grande dificuldade em dialogar com esses temores da população, de oferecer propostas que ajudem quem enfrenta esse medo no dia a dia.

No meio desse tiroteio eleitoral, a população segue insegura. Diversas pesquisas da Genial/Quaest neste ano colocaram a violência como a maior preocupação dos brasileiros, deixando temas como corrupção, saúde, economia e educação para trás. Também nas pesquisas do Datafolha, da Ipsos, da AtlasIntel, para citar algumas.

Por isso, neste ano, a equipe da Agência Pública decidiu focar especialmente na segurança pública na cobertura eleitoral. Vamos investigar a atuação de políticos que compõem  as forças de segurança no país, os acertos e os muitos erros das políticas públicas de segurança, e a captura da pauta por agendas e grupos que visam o lucro ou o extermínio. Nosso objetivo é trazer investigações que importem para os eleitores e eleitoras brasileiros, ajudando a qualificar o debate e dando subsídios para a tomada de decisão.

Também vamos cobrir as tentativas de interferência no processo eleitoral brasileiro, sejam as ordenadas pela Casa Branca – que tanto agiu para moldar os processos na América Latina neste ano -, sejam as realizadas por grupos que espalham desinformação eleitoral para confundir e direcionar o eleitor.

Te convido a seguir acompanhando a Pública e a nossa cobertura, que já começou! Confira abaixo as últimas reportagens que publicamos.

E gostaria também de aproveitar e te perguntar:

Quais são as suas perguntas sobre segurança pública e eleições?

Que matérias você gostaria de ler sobre esse assunto?

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