Finanças para quem não tem renda fixa: especialista explica como criar reserva mesmo com ganhos variáveis

O Brasil fechou o último ano com cerca de 38,5 milhões de trabalhadores informais, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE. São pessoas que vivem de bicos, freelas, serviços avulsos e trabalhos sem vínculo formal. Para esses casos, a renda é variável e o dinheiro entra em valores e datas diferentes a cada mês.

Por isso, as finanças pessoais também precisam de outra lógica. O conselho clássico de “guardar 10% do salário todo mês”, pensado para quem tem contracheque fixo, nem sempre se aplica a essa realidade.

A dimensão dessa dependência fica mais clara quando se observa que 45% dos brasileiros recorrem a trabalhos informais para sobreviver, segundo dados do Instituto Cidades Sustentáveis. Um sinal de que, para quase metade da população, a renda instável não é exceção, mas regra. Nesse cenário, qualquer imprevisto, como um eletrodoméstico que quebra ou uma doença na família, já representa um risco real de desorganizar toda a vida financeira por meses.

Um método que inverte a lógica tradicional

Ricardo Malaquias, Diretor de Estratégia, Cobrança e Operações da Simplic, plataforma de empréstimos 100% online, propõe uma abordagem diferente: o Método da Prioridade Invertida. A ideia, na prática, é simples, mas exige disciplina: assim que o dinheiro de um serviço cai na conta, o primeiro “boleto” a ser pago é o da própria reserva. A segurança do futuro vem antes de qualquer gasto não essencial.

“Quem tem renda variável precisa mudar a forma como pensa sobre guardar dinheiro. Não dá para esperar sobrar. É necessário separar um valor fixo, mesmo que seja R$50 ou 5% de cada bico, assim que receber. É um gesto pequeno, mas que muda o jogo ao longo do tempo”, explica Malaquias.

A lógica por trás do método é comportamental. Quando a reserva vira uma despesa obrigatória, e não uma intenção para “quando der”, ela deixa de ser opcional. O dinheiro separado vai para uma conta diferente da conta do dia a dia, criando uma barreira psicológica entre o que pode ser gasto e o que está sendo construído aos poucos.

Mantendo a consistência: o que funciona na prática

Para quem vive de bicos, os meses bons precisam compensar os meses ruins. E isso só acontece quando existe o hábito de guardar nos momentos em que o dinheiro aparece. Não importa se o valor é pequeno, mas sim a consistência.

Uma reserva de R$200, por exemplo, já pode evitar que um imprevisto de mesmo valor vire uma dívida no cheque especial. Com o tempo, o cofrinho vai enchendo, e a tranquilidade, também.

“A reserva financeira não precisa ser grande para começar a funcionar. Ela precisa existir. Quando se tem algum dinheiro guardado, uma emergência deixa de ser a dívida da família por diversos meses e passa a ser um desconforto momentâneo. Ela passa a servir de colchão de segurança, proporcionando mais liberdade e menos ansiedade”, conclui o especialista.

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