Por João Filho (foto), jornalista, na newsletter Caos & Paixão:
A escolha do vice-presidente da candidatura bolsonarista foi um tremendo fiasco.
Em baixa com o eleitorado feminino, Flávio Bolsonaro, do PL, passou os últimos meses prometendo que escolheria uma vice-presidente mulher.
Mas, segundo o presidente do seu partido, Valdemar da Costa Neto, a procura por um nome feminino não passou de um grande teatro, já que o nome do deputado federal Alfredo Gaspar, também do PL, tinha sido escolhido há seis meses.
É mais uma mentira de Valdemar, claro. O presidente do PL tentou escamotear a bagunça e a fragilidade de uma campanha que até um dia antes da convenção partidária ainda não havia conseguido indicar um vice.
Mesmo tendo uma candidatura eleitoralmente forte, Flávio mostrou-se incapaz de costurar alianças com outros partidos do seu espectro político. É uma proeza e tanto.
O senador então se viu obrigado a formar uma chapa pura do PL, o que diminuiu consideravelmente as possibilidades de escolher uma mulher como vice.
Inabilidade política
O objetivo era buscar a simpatia do eleitorado feminino, mas acabou escolhendo um homem acusado de estuprar uma adolescente para ser seu vice.
O nível de inabilidade política é grande demais para quem está há mais de duas décadas na vida pública. Contrasta com a grande habilidade em multiplicar o patrimônio a cada mandato.
A crise familiar e política implodiu qualquer possibilidade de uma vice mulher. Depois de lavar roupa suja em público, Michelle Bolsonaro, candidata ao Senado pelo PL, recusou a vaga de vice, faltou às convenções e se recusa a aparecer ao lado de Flávio.
Mesmo depois de gravar vídeo aceitando as desculpas do enteado, a ex-primeira dama faz questão de manter distância dele. O fato é que nenhuma mulher topou entrar nessa barca furada.
Se alguém dissesse no início do ano que Flávio iniciaria a disputa sem nenhum partido coligado, ninguém acreditaria. União Brasil, PP, Podemos e Republicanos eram nomes praticamente fechados com Flávio.
Diante da sequência de trapalhadas — “Dark Horse”, Tariflávio e Michelle — os partidos do campo bolsonarista sentiram o cheiro de roubada e decidiram cair fora. Era dado como favas contadas que o Flávio teria muito mais tempo de horário eleitoral na TV que Lula, mas ocorrerá o inverso.
Mais do mesmo
A escolha de Gaspar é surpreendente, porque se esperava um nome mais ao centro, com perfil moderado, para compensar a radicalidade adotada por Flávio. O vice escolhido é mais do mesmo.
Gaspar é um deputado da bancada da bala cuja atuação política praticamente limita-se a vociferar contra a bandidagem.
Talvez o único apelo eleitoral do novo vice seria o destaque que ele teve na relatoria da CPI do INSS, quando pediu, sem sucesso, a prisão preventiva do filho de Lula e entusiasmou os fiéis da seita bolsonarista.
É muito pouco para uma candidatura que, apesar de ter diminuído a vantagem de Lula nas últimas pesquisas, ainda encontra dificuldades para furar a bolha bolsonarista.
A escolha de alguém que está sendo acusado de estupro de uma adolescente é reveladora do desespero que tomou conta do núcleo político de Flávio. Por mais que a acusação não seja confirmada no futuro, ela pairará por algum tempo sobre a candidatura, o que pode ser fatal para quem precisa desesperadamente conquistar o voto feminino.
O campo político que defende a família, a moral e os bons costumes vai disputar o pleito com uma acusação de estupro nas costas. Não é pouca coisa.
A base mais fiel pode até engolir esse sapo, como tem feito com tantos outros ao longo dos anos, mas o eleitor que ainda não decidiu o voto, aquele que Flávio precisa buscar para virar o jogo, dificilmente ignorará o peso da acusação.


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