
Por Davi Nogueira, editor e repórter do site Diário do Centro do Mundo:
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) encontrou uma explicação conveniente para a dificuldade de atrair partidos do Centrão para sua candidatura à Presidência: a culpa seria do STF (Supremo Tribunal Federal). Nesta terça-feira (18), ele afirmou que “altas autoridades em Brasília” ameaçaram dirigentes partidários para impedir uma aliança.
A versão não nasceu com Flávio. Ela já circulava por meio do jornalista Caio Junqueira, da CNN, e ganhou a chancela de Merval Pereira em artigo publicado no jornal O Globo. Merval classificou como “grave” a afirmação de que setores do STF teriam pressionado partidos do Centrão a permanecer neutros na disputa presidencial.
O problema é que uma acusação dessa dimensão exigiria algo além de relatos sobre bastidores. Até agora, não foram apresentados documentos, mensagens, gravações ou nomes de ministros e dirigentes partidários envolvidos na suposta operação. Junqueira menciona os alegados recados, Merval transforma o relato em uma grave interferência política e Flávio agora incorpora a história ao discurso de campanha.
A narrativa também oferece ao senador uma saída para uma dificuldade política bastante concreta: ele não conseguiu reproduzir, até aqui, a capacidade de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, de agregar partidos e lideranças de extrema-direita e do Centrão em torno de seu projeto eleitoral.
Em vez de admitir que as legendas fizeram seus próprios cálculos e decidiram não embarcar oficialmente em sua candidatura, ele apresenta a ausência de apoio como resultado de uma intervenção externa. Em entrevista à rádio Itatiaia, chegou a afirmar que “o sistema está com medo de Flávio Bolsonaro”.
Sem provas apresentadas até agora, a tese de uma pressão coordenada do Judiciário sobre o Centrão permanece apenas uma acusação. Para Flávio, é mais cômodo dizer que poderosas autoridades impediram o Centrão de apoiá-lo do que admitir que, diante das opções disponíveis, os partidos simplesmente decidiram não subir em seu palanque.

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