Música: “Da sala de reboco à arena milionária: legado de Luiz Gonzaga influencia a cultura musical brasileira”

Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor inicia hoje participação neste portal, escrevendo sobre música, artistas e histórias:

O Rei do Baião: foi assim que ficou conhecido no meio artístico Luiz Gonzaga do Nascimento, natural da cidade de Exu e sobrenatural talento do Brasil. Não sem antes, porém, se aventurar numa viagem em caminhão pau-de-arara – tipo de transporte precário e perigoso, muito usado por retirantes nordestinos – do sertão pernambucano até o Rio de Janeiro. Lá, começou a se apresentar em casas noturnas, boates e bares. Tocava de tudo – boleros, tangos, valsas e algumas coisas da sua terra.

Naquele tempo não cantava ainda, era só instrumentista. Como tocava bem a sanfona foi se tornando conhecido e muito requisitado na vida noturna do Rio. O talento logo despertou atenções de quem o assistia.

Gonzaga nos anos 1950

Chegou a participar de um programa de calouros, apresentado pelo compositor Ary Barroso, que logo lhe deu o apelido de “Luiz Lua”, por causa do formato um tanto arredondado da cabeça do nordestino. Mas o encontro com outro nordestino é que foi o gatilho para o sucesso. Humberto Teixeira, cearense de Iguatu, advogado, músico e poeta com muita regionalidade pulsando nas veias, viu em Luiz Gonzaga o que lhe faltava para completar sua obra. Iniciaram uma parceria que rendeu clássicos como Asa Branca, Juazeiro, Assum Preto, Que Nem Jiló e Respeita Januário. A música nordestina começou a ganhar espaço no centro cultural brasileiro – o eixo Rio-São Paulo – e a partir dos anos 1940 o baião, o xote e o xaxado ganharam destaque. Outros músicos e cantores nordestinos foram surgindo, como Jackson do Pandeiro, Carmélia Alves, Marinês e os sanfoneiros Noca do Acordeon, Pedro Sertanejo, Zé Calixto, Elino Julião e outros.

Luiz Gonzaga teve outro parceiro importante na sua trajetória, o também nordestino José de Sousa Dantas Filho, ou apenas Zé Dantas, escritor, folclorista e poeta, nascido na cidade de Carnaíba, no sertão pernambucano. Foram parceiros em diversas músicas que ficaram famosas: Acauã, Vem Morena, Forró de Mané Vito e 13 de Dezembro, choro bem nordestino, só instrumental, homenagem ao parceiro Luiz Gonzaga pelo dia do seu nascimento. Essa música teve, depois de muitos anos, a inclusão do Gilberto Gil como parceiro da dupla, compondo uma magnífica letra.

A música nordestina teve momentos de muita glória em todo o País, por meio da sanfona e da voz marcante o Rei do Baião, divulgando a sonoridade e a poesia da região, despertando a atenção para a rica cultura do agreste brasileiro.

Pessoal do Ceará – Wikipédia, a enciclopédia livre
O Pessoal do Ceará

Os anos se passaram, e a música nordestina foi sendo ofuscada por ritmos estrangeiros que foram chegando e dominando a cena nacional. Rock’n’Roll, Twist, Elvis Presley, Beatles e Rollin Stones se tornaram nomes da moda. Luiz Gonzaga e os demais artistas nordestinos experimentaram dias difíceis, em meados da década de 1960, com as emissoras de rádio divulgando e dedicando mais espaço para a música estrangeira do que para a música produzida aqui. Nessa esteira foram surgindo brasileiros influenciados por essa cultura estrangeira predatória: Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderléia e conjuntos como Renato e seus Blue Caps, Os Incríveis, Golden Boys e outros; era o Iê, iê, iê, ritmo americanizado, que se instalava em nossas terras.

No início da década de 1970, porém, a música nordestina foi renascendo e buscando novamente o espaço perdido. Surgiram artistas cearenses como Fagner, Belchior, Ednardo, Rodger Rogério, Teti, Amelinha, Fausto Nilo, Brandão, Augusto Pontes e Wilson Cirino, todos com fortes influências do Rei do Baião, embora com um toque de modernidade em suas composições.

Destacaram-se também os pernambucanos Dominguinhos, Alceu Valença, Geraldo Azevedo, o paraibano Zé Ramalho e o Quinteto Violado, botando lenha e soprando a brasa na fogueira musical nordestina.

Todos são parte do legado de Luiz Gonzaga para a arte e a cultura dos brasileiros. Quem, por estes dias de festas juninas e “julinas”, percorrer de improvisadas e poeirentas salas de bairros modestos a iluminadas e modernas arenas musicais poderá perceber isso. E saber que se há forró é que porque houve e há, ainda, o sonoro, rico e majestoso Rei do Baião.

Compartilhe o artigo:

ANÚNCIOS

Edit Template

Sobre

Fique por dentro do mundo financeiro das notícias e opiniões que rolam no Ceará, Nordeste e Brasil.

Contato

contato@portalinvestne.com.br

Portal InvestNE. Todos os direitos reservados © 2024 Criado por Agência Cientz