Por Eduardo Goulart, editor sênior de Investigações no The Intercept:
Lá nos meus tempos de repórter da TV Brasil – já se vão quase 15 anos –, eu vivia com uma pulga atrás da orelha sobre a engrenagem tradicional das redações.
No ritmo frenético do telejornalismo diário, a gente corria atrás do próprio rabo para repercutir o que outros veículos já tinham dado ou caía na armadilha de reproduzir pautas de assessorias de imprensa.
Mas eu tinha sede de dar furos. Queria colocar na rua reportagens exclusivas, daquelas que iluminam o que os poderosos querem manter nas sombras e geram impacto real. Foi essa inquietação que me fez buscar o jornalismo de dados.
Foi aí que esbarrei na história de um certo John Snow. E não, não estou falando de “Game of Thrones”.
Falo do médico inglês que, em 1854, mudou a história da saúde pública e nos desenhou a alma do jornalismo de dados.
A cólera matava centenas de pessoas no bairro do Soho, em Londres, e a elite médica jurava que a culpa era do ar poluído, o tal “miasma”.
Snow fez diferente: pegou um mapa da cidade e começou a marcar com pontos pretos cada endereço das pessoas que haviam morrido.
A mancha escura no mapa desenhou um padrão inegável ao redor de uma bomba de água pública. Ele cruzou essa informação com os registros de mortes e provou que a doença vinha da água contaminada.
Essa é a essência do jornalismo de dados: pegar um mar de informações aparentemente caóticas e encontrar o poço contaminado. É poder ver a floresta inteira de cima e, no segundo seguinte, dar um zoom in cirúrgico na árvore doente.
Do “Jornalismo de Precisão” ao caldeirão de 2026
Quem bebeu dessa mesma fonte foi o pesquisador estadunidense Philip Meyer, que nos anos 1970 cravou o conceito genial de “Jornalismo de Precisão”. No Brasil, tive a sorte de aprender essa arte na prática com mestres do setor em oficinas de jornalismo de dados.
Mergulhar em planilhas mudou o meu faro jornalístico. Foi assim que publiquei, no Intercept Brasil, no caldeirão eleitoral das eleições de 2018, mostrando como Jair Bolsonaro liderava os processos de censura contra opositores na internet.Nos anos seguintes, a apuração em bases de dados nos ajudou a revelar a epidemia de hanseníase nos presídios do Mato Grosso e o risco de colapso de UTIs em Manaus bem no início da pandemia.Corta para hoje.
A nossa Central de Dados entrou no jogo
Desde março estou trabalhando como editor sênior de investigações no Intercept, com sangue nos olhos para cobrir essas eleições. E para isso, montamos internamente a nossa Central de Dados.
Contratamos a Pythonic Café, liderada por Álvaro Justen, o Turicas, para nos ajudar no trabalho pesado de processamento e cruzamento de bases de dados gigantescas.
Os frutos dessa pescaria já estão no ar:
A Bancada do Subsolo: Revelamos que 309 candidatos já lucram ou querem faturar com ouro, terras raras e até areia, num cruzamento massivo de dados da Agência Nacional de Mineração e do Tribunal Superior Eleitoral.
Multas do Ibama: Numa parceria com a Agência Tatu, revelamos que o PL lidera com folga o ranking de candidatos com multas ambientais.
Espetacularização na PM de SP:
Analisamos 1.707 vídeos do canal oficial da Polícia Militar de São Paulo no YouTube e descobrimos que, sob a gestão Tarcísio de Freitas, a corporação ignorou regras federais e abraçou a espetacularização da violência.
E vem muito mais por aí. Não vou dar spoilers, mas tem muita coisa pesada sendo garimpada agora…

Fique por dentro do mundo financeiro das notícias e opiniões que rolam no Ceará, Nordeste e Brasil.