Por Edmilson Maia Jr., professor, escritor e historiador:
No auge dos seus 14 anos, Gil não pensava em outra coisa desde o fabuloso crepúsculo cintilado pelo esquadrão que despachou a Celeste Olímpica na quarta-feira no Jalisco.
Nas capoeiras de terra batida, da cidadezinha das luzes do motor apagadas as 8 da noite, tinha dirigido no resto da semana fazendo mandados para o Mestre Adolfo. Passeava na Rural Willys, o único taxi da região dos industriais, donos de corpos e tempos, do “Ouro Branco”. O veterano Adolfo, mecânico desde a Revolução de 30, simpatizou do meninote e fez dele aprendiz do seu ofício – ano passado Gil andava de novo em frente a Oficina próxima ao terreno do Cemitério Azul Caixão de Anjo e escutou:
– Ei, menino, todo dia tu passas aqui de olho nos carros. Quer aprender isso é?
– Consertar ca-ca-carro? – Gil gaguejou receoso com a voz de trovão do Adolfo.
– Consertar, dirigir. Mexer aqui no carrão do Ailton da lotação anil. Quer ou não?
– Quero! O senhor ensina mesmo? Até a Ruralzona azulzinha do Ailtão do táxi?
Ensinou. Gil aprendeu rápido do freio e motores, a manobrar e singrar sertão adentro. Indo e voltando da casinha sem energia, passeando pelo centro e sítios. Foi até na Festa da Rainha do Algodão, de enxerido, fazer bonito, paquerador. Ia para os açudes.
Hoje, todavia, Gil só queria saber de uma tal de Jules Rimet. Os pais não tinham condições e proibiram que assistissem televisão na casa dos outros, no fazendeiro Floriano Campos que colocou até o papel celofane na tela para assistirem o tri a cores. Ele e o filho expulsaram Gil e meninas na estreia dos “Irmãos Coragem” no começo do mês: “Vão simbora daqui, fedorentos”. Narinha e Nildinha dessa vez foram acompanhar à decisão no Azteca na calçada alta do vereador. Aproveitaram que os pais, o velho Zeca e a Dona Rita, estavam com os irmãos mais velhos que tinham ido na frente procurar casa na capital para mudarem em agosto: os pais queriam educar os filhos, e “Zeca queria matar o Coronel Floriano”, o coração de Dona Rita sussurrava, melhor, então, partir. Narlúcia, a primogênita, ficou cuidando do caçula e ia ouvir o jogo pela Taça no Zilomag.
Gil chegou foi cedo para levar sua turma na Rural para assistir Pelé, Tostão, Rivelino e cia no televisor colocado na Praça pelo Prefeito Zé Lemos. Correram atrás de um lugar na lona armada antes do meio-dia. Nos rachas, ele e essa rapaziada do distrito simulariam o Rei subir nas nuvens; Gérson com o pé certeiro, Jairzinho fazendo outro gol, imaginavam Carlos Alberto Torres ocupando espaço vazio no tal do overllaping.
Tempo voou e a pilota de caça, engenheira militar, Gilmara, debochou do tetra no Rose Bowl: “Ganhar da Itália nos penais…”. Viu o penta com o “Ex” em Yokohama. Teimava chegar o hexa. Agora ela viajava na pista dupla à cidade natal após décadas longe. A afilhada Sabrina, organizadora pela net da festa de 70 anos, à noite, com conhecidos, sobrinhos, a tia Nilda, sobrinhos-netos, vizinhos, acelerava forte com a BYD-SHARK no asfalto em brasa.
Na manhã seguinte, após comemorar seu aniversário com a verdadeira multidão que apareceu, fotos postadas nas redes sociais, Gilmara foi até o Cemitério Azul Caixão de Anjo. Lamentou pelo Velho Zeca, por seus irmãos, que deixaram de falar com ela desde a cirurgia na Califórnia, há mais de 30 anos, chorou por Dona Rita e suas irmãs que sempre lembravam do seu dia, do Natal, Ano-Novo.
Ela estava em frente ao túmulo do Mestre Adolfo quando Sabrina olhou o céu cinza que se formara e a chamou para se retirarem. Tinham passagens agendadas e ingressos comprados para a final no Metlife Stadium em East Rutherford, Nova Jersey.
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Edmilson Alves Maia Júnior nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG. Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, onde é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc. Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.


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