Por Edmilson Maia Jr., professor e historiador:
No domingo, o título veio no 0 a 0, no sufoco. O ponta Aleluia jogou machucado, benzido por curandeira, diria décadas depois. Barba pegou até pensamento e praticou ao menos três milagres: desviou com a ponta dos dedos petardo no cantinho; e foi buscar no ângulo duas faltas do Nildo, o craque do time adversário que buscava o tricampeonato.
Jairzinho, no ônibus da volta, provocou os rivais: “Vocês foram tri-tri-triturados!”
Em julho, mês da copa, ele e a irmã viúva Madalena visitariam os pais com as três crianças órfãs de Vavá – morto ano passado quando roubaram seu táxi. Iam até a fazenda do pai José Dimas, sujeito teimoso, migrante da seringueira, da caatinga, dos pampas e cerrados, que nunca chutara uma bola – tinha era raiva. Estava com 77 anos sempre turrão.
Desde 1986 não voltavam lá: o patriarca nunca quis Madalena casada com o “Preto Vavá”. E de “86”, o moço Jair recordava bem – última vez que chorou pela seleção. Acusaram Dindim e Carlão pela derrota ao “quebrarem a corrente”: não assistiram as quartas contra a França na Bodega do Riva, na Rua Manoel Francisco dos Santos onde residiam. Voltaram do Conjunto Edson Arantes, de madrugada, botando boneco: “O Zico estava frio, não devia ter batido”. Jairzinho só não assistiu a final. Ajudava na quermesse da Igreja, Vavá e Madalena obrigaram. Foi Dalma, a católica napolitana da gema, quem cochichou: “3 a 2. Não fez gol, porém deu o passe miraculoso da vitória. Dio Mio!”
Chegaram. De chapéu, o velho Dimas, sisudo, vermelho do sol, sentado no parapeito do alpendre. As gêmeas dispararam pelo firmamento sem fim à frente do sítio. Improvisaram duas travinhas com as chinelas. A mãe falou para se aquietarem. Vó Stella: “Deixa as meninas brincarem, Lena.” “Vavá Júnior” abriu o berreiro. A dente de leite, presente do finado para as filhas – quebravam garrafas, lâmpadas, vasos, jogando com ele e Jairzinho no quintal – rolou na poeira do meio-dia até o ancião. Zé, olhos marejados, devolveu a bola com a mão para as netinhas. Uma delas deu voltando. Ficou à feição:
− “Chuta, Vô!” – Sara e Lara gritaram.
Ele errou o chutão embaixo. A bola, que iria embarcar, saiu foi em linha reta, rasteira, rente ao piso batido de terra colorada, pois o dedão bateu bem no meio da pelota, que ultrapassou, tipo um foguete mágico, a cósmica linha imaginária entre as havaianas.
− “Vovô! Vovô! Vovô!” – comemoraram as duas menininhas vestidas de Brasil.
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Edmilson Alves Maia Júnior nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG. Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, onde é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc. Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.


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