Paulo Motoryn: “Michelle Bolsonaro e sua liberdade de expressão seletiva” (ou “Jogo bruto do fanatismo ameaça a vida de jornalistas”)

Da newsletter Cartas Marcadas, do site The Intercept, com texto de Paulo Motoryn (foto ao lado):

Eu sei que esse tema não é popular. Eu mesmo não dava muita bola até sentir na pele. Por isso, não posso ignorar.

No sábado, 14, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro compartilhou um vídeo que acusa, sem qualquer prova, jornalistas de “desejarem” a morte do ex-presidente Jair Bolsonaro enquanto cobriam sua internação no Hospital DF Star, em Brasília.

A gravação mostra uma influenciadora bolsonarista abordando repórteres que estavam do lado de fora do hospital acompanhando atualizações sobre o estado de saúde do ex-presidente, internado na UTI por uma pneumonia bacteriana decorrente de broncoaspiração.

No vídeo, a mulher acusa jornalistas de discutirem a possibilidade de morte de Bolsonaro e os confronta diante das câmeras. Em nenhum momento aparecem as supostas falas que ela atribui aos profissionais.

Ainda assim, a gravação foi divulgada com a legenda de que repórteres estariam “reunidos desejando a morte de Bolsonaro e comemorando por ser sexta-feira 13”.

O resultado foi imediato. Após a circulação do vídeo, jornalistas que estavam no local passaram a ser identificados nas redes sociais e sofreram ataques. Dois profissionais registraram boletins de ocorrência após intimidações. Um deles relatou que o filho foi ameaçado e precisou fechar suas contas nas redes.

Segundo a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo, a Abraji, circularam montagens e vídeos produzidos com inteligência artificial simulando violência contra uma das repórteres — inclusive uma falsa gravação em que ela aparece sendo esfaqueada.

Vida de jornalistas está em risco

Por coincidência, poucos dias antes eu voltei a receber uma ameaça grave por e-mail. A última coisa que eu gostaria era voltar a esse assunto.

A mensagem que recebi foi motivada por uma reportagem que fiz na Argentina sobre os foragidos do 8 de janeiro, que completou um ano na semana passada.

“Seu nome já está na lista de todos aqueles que irão pagar pela perseguição cruel e injusta dos condenados injustamente pelos criminosos estabelecidos no poder. Em momento oportuno, a justiça será feita. Aguarde!”, diz a mensagem que recebi na última quinta-feira, 12.

Fiz um boletim de ocorrência e, hoje, estou mais preparado para lidar com esse tipo de coisa. Mas, é claro, revivi tudo que passei no ano passado: a enxurrada de ameaças de morte, a difamação, uma mudança forçada de estado.

Eu preferiria nunca mais precisar escrever sobre isso.

Mas essa nova ameaça e o que aconteceu neste fim de semana com meus colegas que estavam na porta do hospital mostra que o problema não desapareceu. Pelo contrário. É uma evidência muito clara do que pode estar à frente.

Se o Brasil entrar em um governo Flávio Bolsonaro, jornalistas precisam entender desde já qual será o clima político do país. E, principalmente, os patrões dos veículos precisam entender.

Depois do caso envolvendo o colunista Lauro Jardim e o banqueiro Daniel Vorcaro, ouvi de um jornalista muito experiente uma frase que ficou na minha cabeça.

Segundo ele, agora sim a Globo iria até o fim no caso Master— porque a família Marinho pode ter muitos defeitos, mas não tolera ataques a seus jornalistas.

Não sei se isso é verdade. Mas espero sinceramente que seja. E espero que os donos de todos os veículos de comunicação no Brasil acordem rápido para o que está em jogo nesta eleição.

Não é apenas poder político. É a própria existência do jornalismo e a vida de quem o pratica.

Histórias como esta mostram por que o jornalismo independente é cada dia mais necessário.

Quando figuras públicas estimulam ataques ou quando jornalistas passam a trabalhar sob ameaça, investigar e documentar esses episódios deixa de ser apenas reportagem passa a ser uma forma de proteger a própria existência do jornalismo.

Cadê a gritaria?

Na semana passada, o jornalista Luís Pablo Conceição Almeida, do Maranhão, foi alvo de busca e apreensão determinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal, o STF, Alexandre de Moraes, após reportagens sobre o também ministro do STF Flávio Dino — uma medida que gerou forte reação pública e acusações de intimidação à imprensa.

Sou contra esse tipo de medida e me manifestei dessa forma. Mas me chama atenção que o caso dos repórteres do hospital e as ameaças que voltei a receber dificilmente terão um décimo dessa repercussão — mesmo que envolvam jornalistas que trabalham em veículos de projeção nacional. Isso não acontece por acaso.

Acontece porque, no Brasil de hoje, a defesa da liberdade de expressão se tornou seletiva.

No caso do jornalista maranhense, o que vemos é uma solidariedade oportunista, usada apenas quando serve para desgastar o Supremo Tribunal Federal — que, sim, pode errar e deve ser criticado — mas abandonada quando jornalistas viram alvo de campanhas de ódio nas redes e nas ruas.

Não há liberdade de imprensa seletiva. Ou se defende jornalistas sempre ou não se defende nunca.

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O vídeo abaixo é do site UOL:

 

 

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