Quem cogita pedir demissão muitas vezes toma a decisão movido pelo cansaço, pela frustração ou por um episódio pontual. Para evitar que a saída se transforme em arrependimento, Virgilio Marques dos Santos (foto), sócio-fundador da FM2S (startup sediada no Parque Científico e Tecnológico da Unicamp), PhD pela Unicamp e gestor de carreiras, propõe um roteiro de quatro perguntas antes da decisão.
“Sair de um emprego é decisão de carreira, e decisão de carreira pede método”, afirma. O roteiro, segundo ele, funciona tanto para quem já tem uma proposta na mesa quanto para quem deseja apenas interromper uma rotina desgastante.
“A pior decisão é aquela tomada apenas para interromper o desconforto do presente, sem clareza sobre o próximo passo”, acrescenta.
O contexto ajuda a explicar a procura pelo tema. Levantamento da consultoria 4intelligence, com base no Caged, mostra que o Brasil registrou cerca de 9 milhões de demissões voluntárias em 2025. Entre trabalhadores que pediram desligamento, sondagem do Ministério do Trabalho e Emprego com 53.692 pessoas apontou que apenas 36,5% já tinham outro emprego em vista no momento da saída. Os demais citaram salário baixo (32,5%), falta de reconhecimento (24,7%) e adoecimento mental por estresse (23%), entre outros motivos.
Veja as quatro perguntas propostas por Santos.
1. Você está saindo de um problema ou indo atrás de uma oportunidade?” “As duas situações se confundem no calor da decisão. Problema que a pessoa não consegue nomear costuma reaparecer na empresa seguinte”, observa.
2. Você já tentou mudar a situação onde está?
Conversa com a liderança, pedido de transferência de projeto e renegociação de escopo podem anteceder a saída. “Nem toda insatisfação precisa virar demissão. Em determinadas situações, é possível dialogar e encontrar novos caminhos na própria empresa”, pondera Santos.
3. O que você levaria dessa experiência se saísse hoje?
“Competências desenvolvidas, resultados entregues e aprendizados formam o repertório da próxima entrevista. É o que atravessa a porta com o profissional”, diz.
4. Você consegue ficar alguns meses sem renda?
Planejamento financeiro para ao menos seis meses é essencial. “Reserva financeira compra tempo, e tempo melhora a qualidade da escolha”, acrescenta Santos.
O especialista acrescenta que o roteiro também interessa às empresas. Quando salário e reconhecimento lideram os motivos de saída, parte da rotatividade tem origem interna e pode ser tratada antes do pedido de desligamento.
Para o especialista, o roteiro também serve de alerta para as empresas. Quando salário, reconhecimento e saúde mental aparecem entre os principais motivos para pedir demissão, parte da rotatividade tem origem interna e pode ser reduzida com mudanças na gestão e no ambiente de trabalho.
“Nem toda saída é inevitável. Muitas vezes, uma conversa, uma mudança de escopo ou um plano de desenvolvimento resolvem o problema antes que o pedido de demissão aconteça. Para o profissional, o método ajuda a decidir com mais clareza. Para a empresa, ajuda a identificar o que pode ser melhorado para reter talentos”, conclui Santos.

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