Por Roberto Maciel, jornalista:
Esse é um texto testemunhal. E é, por isso e obviamente, muito pessoal. Terei, portanto, de escrevê-lo na primeira pessoa do singular, ao que não estou muito habituado. Tirante essa necessária explicação, observo que justamente por ser muito pessoal não pretendo que o que relatarei aqui mude ideia, costume, preferência ou o que quer que seja de leitoras, leitores e pessoas próximas. Cada um que faça o julgamento que lhe aprouver.
Quando eu tinha 15 ou 16 anos de idade, contraí uma bactéria da qual nunca havia ouvido falar: pseudomona aeruginosa – não é só a estranheza com o nome que me faz, ainda hoje, lembrar de cada letra. A violência com que esse micro-organismo atuou contra mim, quase me matando, não me deixa esquecê-lo. Cheguei a 42° de febre. Delirei horrores. Perdi um mês de aulas, ou mais do que isso. Precisei tomar antibióticos pesados, daqueles com efeitos colaterais muito agressivos e extensos.
Creio que tenha sido infectado em Teresina, no Piauí, onde havia ido passar um fim de semana na casa de amigos.
Hoje, distante e guardado pelo tempo e pelo conhecimento, já sei de algo mais sobre a pseudomona aerugionosa. Descobri que aparece em ambientes diversos – no solo, principalmente. Também aprendi que é capaz e obrar desgraças em ambientes hospitalares, promovendo gravíssimas infecções, sendo muito resistente a um amplo leque de antibióticos e antissépticos.
Ok, fui esperto: levado pela curiosidade, incorporei conhecimentos para justificar o enorme alívio que sinto por ter escapado daquilo e o receio de topar outra vez com a bactéria. Sei, por experiência própria, ter a prudência necessária para tentar evitá-la.
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Vendo o noticiário, topei novamente com a tal pseudomona aeruginosa. A Agência de Vigilância Sanitária a encontrou em produtos da marca Ypê. Por ter sido empresa apoiadora da campanha eleitoral de Jair Bolsonaro, o miliciano e vigarista que tentou dar um golpe de estado contra a Democracia, seguidores dessa linha política-delinquente têm espalhado nas redes sociais a versão de que a Ypê sofre perseguição, de que é vítima de um sistema.

Nada disso é correto: a Ypê pode estar, na verdade, servindo de meio de contaminação de pessoas pela pseudomona aeruginosa – ou seja, por uma bactéria extremamente virulenta, de alta letalidade.
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Não se trata de questão ideológica ou política. É, a bem da verdade, assunto que envolve vida e morte. É como, por exemplo, a covid-19, guardadas as proporções devidas.
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Não estou preocupado com a saúde ou a sobrevivência de nenhuma pessoa que tem gravado vídeos fingindo beber detergente Ypê ou se banhando com o produto. Peço licença para reproduzir aqui uma das influenciadoras mais agudas e bem-humoradas que vejo no Instagram: Alexia Eduarda, uma sergipana arretada, despachada, que não dá moleza para gente otária:
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Sinceramente, desejo que esses encontrem o desfecho mais adequado, cabível e presumível para o que cometem. O que me preocupa são crianças e adolescentes ou ignorantes que podem ser tragados pela desinformação, pelo ódio ou simplesmente pela imbecilidade.
Esses, de fato, merecem atenção. Quando lembro deles me lembro automaticamente daquele menino de 15 ou 16 anos que foi se divertir num fim de semana e acabou com febre elevadíssima, delírios e quase morrendo.
Sério pessoal: continue batendo continência para pneus ou sinalizando para ETs. É mais seguro. É até mais inteligente e mais responsável.


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