Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:
A primeira vez que ouvi aquela música, há exatos 60 anos, eu não tinha maturidade suficiente para entender a contundente crítica social de sua mensagem; imaginei que se tratasse pura e simplesmente de algo relacionado às lides do ambiente das fazendas de criação de gado, devido aos termos contidos na letra – lugar-tenente, cavalo, boiada – e também pelo arranjo instrumental concebido, usando elementos bem característicos da música do sertão, como a violas, maracás e até uma queixada de burro, para emitir um som idêntico ao do chicote estalando.
Aquela música era “Disparada”.
Havia algo a mais nas entrelinhas; uma metáfora muito bem colocada – a boiada era gente e peão que montou e se tornou vaqueiro, antes era boi – talvez para driblar a tesoura dos censores. Geraldo Vandré e Théo de Barros – os compositores – foram muito felizes na elaboração da mensagem, e tiveram o reconhecimento do júri, da plateia e até do principal concorrente – Chico Buarque de Holanda, com a Banda – naquele Festival de Música Popular Brasileira, realizado pela TV Record em 1966.
A interpretação ficou por conta de Jair Rodrigues, um cantor mais identificado com o samba, fato que muito desagradou a Vandré, chegando a comentar nos bastidores, a sua decepção. Ao saber disso, os brios do cantor foram fortemente golpeados, e ele subiu ao palco com uma garra redobrada, arrasando numa interpretação memorável, emocionando a todos, inclusive o autor “decepcionado”.
“Prepare o seu coração pras coisas que eu vou contar”, diziam os autores, pois algo muito dramático se desenrolará adiante e poderá não agradar. O peão aceitou assumir o cargo do vaqueiro que morreu e, a partir daí, passou a montar um cavalo de chicote em punho, tanger a boiada e dar ordens aos outros peões, que antes eram seus iguais, tratando-os com a rusticidade com que outrora também fora tratado.
“Na boiada já fui boi,
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu,
ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse,
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
cujo vaqueiro morreu…”
“Boiadeiro muito tempo
Laço firme, braço forte
Muito gado muita gente,
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
Que boiadeiro era um rei”
Com o tempo, sua forma de ver as coisas foi mudando, e o senso de justiça lhe tocou à mente, para enxergar melhor o que se passava ao seu redor.
“Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos que fui sonhando
As visões fui clareando
Até que um dia acordei
Então não pude seguir
Valente lugar tenente
De dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente”.
Ele se revolta com a realidade que se revela e resolve abandonar tudo, para não ser um protagonista daquele drama.
“Se você não concordar,
Não posso me desculpar,
Não canto para enganar,
Vou pegar minha viola,
Vou deixar você de lado,
Vou cantar noutro lugar”

Passado tanto tempo e a mensagem contida em “Disparada” continua atual; o mundo evoluiu tecnologicamente, as informações fluem em tempo real, mas as relações de trabalho continuam atrasadas, abusivas e opressoras, como reflexo de um sistema capitalista ganancioso e explorador, que coloca o lucro acima da dignidade humana, ignorando que aquela força de trabalho que produz e gera riqueza, vem de um ser humano com sentimentos, aspirações e desejos, e precisa ter acesso, de forma justa, ao fruto do seu trabalho, “Porque gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas com gente é diferente…”


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