Sábado é dia de Samba: a censura covarde e criminosa e a ginga e as malandragens dos artistas

Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:

A música popular brasileira, principalmente o Samba, pela inserção nas classes populares, sempre despertou a atenção do Estado como elemento a ser explorado para divulgação de políticas públicas e até para a manipulação ideológica.

Nos anos 1940, no governo de Getúlio Vargas, o Estado Novo fez ampla campanha para que os compositores criassem músicas de exaltação ao trabalho e ao trabalhador, visando com isso a desestimular a “malandragem” muito em voga na época e também censurando letras que considerava apologia à vadiagem. As escolas do carnaval do Rio de Janeiro só poderiam apresentar em seus enredos sambas com temas históricos e patrióticos.

O maestro Heitor Villa Lobos, que na época exercia o cargo de diretor do Departamento de Música do Ministério da Educação e Cultura, fora designado para conduzir a estratégia nacionalista. Por ter identificação muito forte com os músicos e compositores populares, acreditava-se que a tarefa não lhe pesaria tanto. A ideia do governo getulista era fazer aflorar a essência da cultura popular do País, por meio das manifestações genuinamente brasileiras, destacando todas as tendências musicais – o Samba, o Choro e a Música Caipira.

A Censura estava atenta para coibir qualquer intenção, por parte dos compositores, de se criarem obras que viessem a distorcer o sentido dessa “política” do governo de então.

O “Bonde de São Januário”, de Ataulfo Alves e Wilson Batista, provou da “tesoura” afiada dos censores. Havia um trecho que dizia que “o bonde São Januário leva mais esse otário/Sou eu que vou trabalhar”. A letra não podia ser gravada com a palavra “otário”, pois manchava a imagem do trabalhador. O xis marcado pelo censor transformou-se na incógnita do problema a ser equacionado pelos compositores. A obra tinha que ser gravada, afinal ia dar uma boa grana para aliviar a “liseira” da dupla. A solução chegou quase que imediata para os parceiros – “operário” foi a palavra mágica para salvar o samba da lata do lixo. E o remendo ficou assim: “O Bonde São Januário leva mais um operário/Sou eu que vou trabalhar”.

Nos tempo da ditadura imposta em 1964, os presidentes militares também se utilizaram do apelo musical para enaltecer suas virtudes e despertar o espírito ufanista dos brasileiros. Surgiram músicas como “Eu te amo meu Brasil”, de Dom e Ravel e “Pra frente Brasil”, do compositor Miguel Gustavo, essa lançada na época da Copa do Mundo de 1970. Como o Brasil conquistou o tri naquele ano, o efeito foi potencializado, tornando-se peça obrigatória nos eventos cívicos da época.

Compositores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Geraldo Vandré não entraram nessa de bajular mandatários de farda, e usaram a arte para criticar e denunciar a falta de liberdade e a violência praticada contra os adversários políticos. A censura passou a persegui-los, e muitas de suas obras foram inteiramente proibidas de serem gravadas.

Qualquer canção composta por esses autores despertava atenção redobrada, pois nada poderia escapar que pudesse desagradar aos carrancudos generais. A tesoura ditatorial passou a cortar tudo que via na frente, bastava saber quem eram os autores.

Em 1974, Chico Buarque teve um disco todo censurado – “Chico Canta Calabar”, com as músicas da peça “Calabar”, escrita em parceria com o dramaturgo Ruy Guerra. O álbum foi gravado, mas com outro nome – apenas “Chico Canta” – e com músicas de outros compositores, já que as dele foram proibidas. A ideia de usar um pseudônimo deu resultado: nesse mesmo disco um tal de Julinho da Adelaide aparece como autor do samba “Acorda Amor”; limpeza total, a música do Chico passou despercebida pelos censores.

Como a ordem daquele momento era proibir por proibir, coisas totalmente banais e sem nenhuma conotação política sofriam a ação da “tesoura confusa” do Regime. Tempos difíceis para a cultura brasileira.

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