Sábado é dia de Samba: “A genialidade de um compositor – Geraldo Pereira e a arte de contar a vida”

Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:

O rapaz era mineiro de Juiz de Fora e foi morar no Rio de Janeiro, com o irmão mais velho, com 12 anos. Cresceu no subúrbio em meio à malandragem que reinava nas décadas de 1930 e 1940. Seu dom de músico autodidata e de compositor encontrou terreno fértil para fazer brotar uma natural versatilidade de criar melodias e versos, inspirados no cotidiano das pessoas simples. Seu nome era Geraldo Teodoro Pereira, nascido em 23 de abril de 1918, magro, alto, muito simpático, mulherengo e também bom de briga; transitava com fluência e maciez no meio dos “barra pesadas” que frequentavam os botecos, gafieiras e cabarés.

O Morro de Mangueira logo o acolheu sem restrições, com as assinaturas embaixo de Cartola e Carlos Cachaça. Tornou-se depois o diretor de Harmonia da Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira, que já ostentava o título de primeira campeã do Carnaval Carioca.

Geraldo Pereira era aquele tipo de compositor cronista, que colocava em samba tudo o que estava ao seu redor; a paisagem, os tipos humanos, dramas, amores e tragédias. Tinha uma capacidade descomunal de sintetizar histórias, verdadeiras ou não, em suas letras, sempre com bom humor e o sotaque de sua gente – o brasileiro marginalizado – não necessariamente delinquente, mas um tipo que habita distante das benesses e luxos da elite; que trabalha pesado e ganha pouco, apenas o necessário para uma sobrevivência cheia de limitações.

Seus sambas mesclavam protesto, crítica social e os dramas amorosos, sempre com muita classe e humor requintado. Suas melodias têm uma característica sincopada que influenciou muito a Bossa Nova, sendo inclusive algumas composições suas gravadas por João Gilberto. Outros compositores e cantores da MPB, como Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Paulinho da Viola e Gal Costa, também gravaram suas músicas.

Falsa Baiana, Ministério da Economia, Sem Compromisso, Bolinha de Papel, Onde está Florisbela?, Falso Patriota, Escurinho e Escurinha são sugestões para quem quiser conhecer um pouco do enorme talento de Geraldo Pereira.

Mas essa, em parceria com Wilson Batista é, na minha opinião, a mais genial: “Etelvina, acertei no milhar,/ganhei quinhentos contos não vou mais trabalhar…” É assim que ele inicia o “Acertei no Milhar” (ouça abaixo com outro gigante, Moreira da Silva); sobre um desejo latente do brasileiro pobre, estivador do cais do porto, com a coluna vertebral empenada pelos sacos de 60 quilos, em jornadas massacrantes por um mísero salário no fim do mês.

A letra do samba mergulha num sonho de ter ficado rico repentinamente, pois acertara no milhar. Seu senso de solidariedade é imediato, doando as roupas velhas aos pobres. Depois quebrando a mobília estragada. Promete uma nova lua de mel à esposa, um professor de francês e a mudança de seu nome para “Madame Pompadu”. Depois de delirar com tanto luxo e já ter comprado “um nome não sei onde, de marquês ou de visconde, viagens à Europa até Paris, sua patroa o acorda aborrecida convocando-o para o “batente”; acorda vargulino…!

Viveu pouco, 37 anos apenas, mas deixou uma obra genial, retratando o modo de ser do brasileiro popular, cheio sonhos, aspirações e muito sofrimento, assistindo impotente e bem de perto, o contraste social que à época era bem mais acentuado.

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A propósito, é importante citar Jeanne-Antoinette Poisson, Marquesa de Pompadour, que se fez conhecida como Madame de Pompadour. Antes, muito antes!, de ser personagem de Geraldo Pereira, foi cortesã francesa. Era tida como favorita e “amante real” do rei Luís XV. Tornou-se personagem emblemática do decadente nobreza no século XVIII na Europa. Foi chamada, pela relevância e pelo poder que obteve, de “reinette” (“rainhazinha”). Não parece exagerada, portanto, a promessa do Geraldo Pereira à Etelvina.

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Uma playlist na plataforma Spotfy chama atenção não unicamente para a música de Geraldo Pereira, mas também para a diversidade de intérpretes que ele teve e tem.

Confira:

https://open.spotify.com/user/12148718023?si=2936557c69bb440d

 

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