Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:
Gostar de música é algo muito espontâneo no ser humano; faz parte da nossa natureza. A criança, antes de falar as primeiras palavras, canta, balbuciando sons que formam uma melodia.
Gosta-se de música por se identificar com suas mensagens ou simplesmente por trazer alegria e entretenimento; ou ainda, por proporcionar lembranças de bons momentos vividos, amores, amizades, enfim, algo que marcou sua vida e uma música, casualmente, tocava ao longe.
São diversas, as formas de se apreciar a música; tem aqueles que são meros ouvintes e não têm preferência definida por estilos, cantores, compositores, músicos etc; o som invade seus ouvidos e se tiver uma melodia agradável e um ritmo alegre, é muito bem-vinda; não se interessa por detalhes daquilo que ouve. Outros, mais exigentes e com ouvido mais apurado e preferências definidas, mudam de estação se o estilo não é o seu.
Os aficionados vão mais a fundo nesse universo, buscando interpretações variadas sobre as mensagens sonoras e poéticas, os detalhes harmônicos e os arranjos orquestrais. Quem são os músicos em atuação, o autor da melodia e da letra e até o que motivou aquela criação, qual a fonte de inspiração…
É muito difícil ouvirmos de alguém uma frase assim: “eu não gosto de música…” Soa estranho uma pessoa nunca ter se encantado com uma melodia, seja instrumental ou cantada, que lhe toque os sentimentos proporcionando algum prazer; mas tudo é possível.
Outro dia, lendo algo sobre o poema “Morte e Vida Severina”, do poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (foto acima), que foi adaptado para o teatro por um grupo de jovens estudantes universitários e teve músicas compostas por Chico Buarque de Holanda; o Tema Principal, interpretado em coral e orquestra, e o “Funeral de um Lavrador”, com a letra que é parte do poema, musicado pelo Chico. O autor ao saber das músicas inseridas na encenação dramática, inicialmente, não gostou da ideia, talvez por achar que a música pudesse alterar a sonoridade natural do poema. Depois ficou sabido que João Cabral, não gostava de música, conforme declaração do próprio, chegando a dizer, em tom de brincadeira, que se ficasse surdo não sofreria tanto.
Mas, ao assistir à apresentação, se rendeu à beleza do espetáculo. A peça foi um sucesso, sendo inclusive premiada num festival de teatro que participara na França.
Às vezes, o gosto musical é carregado por preconceitos e vícios, fazendo com que se excluam automaticamente músicas, cantores e compositores que julgamos, previamente, como de qualidade inferior, não lhes dando a devida atenção. A história está cheia de exemplos assim; artistas como Cartola, Nelson Cavaquinho, Geraldo Pereira e Wilson Batista, foram vítimas e esperaram anos para terem suas obras reconhecidas pelo grande público.
A beleza é algo muito forte. Pode até demorar, mas jamais passará despercebida.


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