Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:
Por que a música popular sofre tanto preconceito? Compositores e músicos estão sempre relegados a planos inferiores, simplesmente por pertencerem, eventualmente, à base da pirâmide social de pele escura. Suas obras, muitas vezes de grande valor artístico, passam despercebidas do grande público, como se a produção de uma arte qualificada fosse exclusiva das camadas mais elevadas da nossa sociedade de pele clara.
O Samba e o Choro, nossas expressões musicais mais genuínas, trazem nas origens o batuque africano e as vivências nos terreiros de matriz africana. Frequentados por ex-escravizados e seus descendentes, esses espaços e manifestações foram historicamente marginalizados; seus compositores sofriam perseguição das autoridades policiais que, movidas pelo preconceito da época, os rotulavam injustamente como contraventores ou desocupados.
A Igreja Católica não via com bons olhos aquelas manifestações religiosas de matrizes africanas, pois as considerava anticristã.
Naquele período pós-Abolição, o Brasil ainda mantinha hábitos e cultura de uma colônia, sem uma identidade própria, com as marcas ainda bem nítidas do seu colonizador europeu; a música que se consumia era totalmente de origem estrangeira – Valsas, Polcas, Shottich e Mazurcas. Algo diferente disso não era bem aceito nos salões; as canções de compositores brasileiros vindos do povo, eram classificadas como inferiores, fora dos padrões da elite.
Mas aos poucos, nossa música foi rompendo barreiras e abrindo espaços antes intransponíveis, fazendo apresentações em teatros e salões da nobreza, participando de apresentações no exterior, como foi o caso dos “Oito Batutas”, grupo instrumental que tinha na sua formação Pixinguinha, China (irmão de Pixinguinha), Donga e João Pernambuco, que fizeram uma excursão à Paris, em 1922, exibindo a cultura brasileira, de forma inédita, para além de nossas fronteiras, com boa aceitação do público daquele país, repercutindo inclusive numa melhor e mais abrangente assimilação do Samba e do Choro em terras nativas.
Em 1928, Pixinguinha e os companheiros do “Oito Batutas”, todos negros, foram homenageados pelo sucesso que faziam em apresentações por várias capitais, no Palace Hotel, no Rio de Janeiro. Ao chegarem no portão principal de entrada, o porteiro os orientou que deveriam entrar pela porta dos fundos, como era a regra para pessoas negras.
Outro episódio marcante aconteceu mais recentemente, em meados dos anos 1960. A cantora Elis Regina apresentava, em companhia de Jair Rodrigues, um programa musical – O Fino da Bossa – na TV Record, e acabara de conhecer um cantor/compositor iniciante – Milton Nascimento – que despertou sua atenção e a quem convidou para fazer uma apresentação no programa. Levou a proposta para a produção e esta negou-lhe o pedido, argumentando que o artista era um desconhecido e não lhe caberia naquele espaço. Elis bateu na mesa e partiu para cima: “Pois então não tem programa”. Depois da “voadora”, Bituca foi lá e arrasou. Essa história foi contada pelo próprio Milton, emocionado e agradecido para sempre pela oportunidade que teve.

Com o surgimento de diversos compositores, instrumentistas, poetas e letristas, de classes sociais distintas, uma rica mistura de tendências e estilos foi se formando – samba-canção, samba-choro, samba sincopado, bossa nova – resultando no que é hoje a nossa MPB.
Mas o preconceito na música popular não é exclusividade brasileira. O Tango, expressão cultural argentina surgida em finais do século XIX e início do XX, como o Samba e o Choro brasileiro, originou-se das camadas mais baixas da população e passou pelo mesmo processo de aceitação. Inicialmente restrito aos ambientes de cabarés e botequins, à beira do cais, frequentados por prostitutas e estivadores, sofreu também o desapego e a indiferença do extrato social mais elevado e também da Igreja Católica, que condenava os apelos sensuais da dança. Tudo isso até passar pela anuência de uma grande nação – a França, sempre ela –, após turnê de um grupo musical argentino, com cantores, instrumentistas e dançarinos. Fizeram vibrar o público francês, que soube reconhecer a riqueza rítmica que unia, além da música, poesia e drama, interpretados numa dança que, ora expressava a harmonia de uma relação amorosa, ora a separação, o abandono, a tragédia e a solidão.
Com os aplausos vindos lá de longe, o preconceito desabou e, nos salões elitizados, já se dançava de rostos colados, corpos girando e alternando entrelaçar de pernas.
O Jazz e o Blues nos Estados Unidos, também carregam esse fardo do preconceito e discriminação por suas elites, pelos mesmos motivos e trazem muitas semelhanças na herança cultural dos negros escravizados aqui e lá. O que se torna curioso são as diferenças dos estilos musicais gerados pela influência africana nos dois países; talvez a explicação esteja nas culturas já existentes no Brasil Colônia Portuguesa e nos EUA Colônia Britânica.
Um traço comum entre os exemplos acima citados, é que a cultura de uma nação às vezes é desprezada pelo seu próprio povo, achando que o que é bom vem de fora, deixando de reconhecer as manifestações que o identifica e o torna único, um patrimônio intangível formado espontaneamente.


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