Sabrina Fernandes, do The Intercept: “Criminosos de guerra nas praias brasileiras?” (ou “Há direito de não viver em guerra?”)

Sabrina Fernandes: É uma contradição seguir investindo no pré-salPor Sabrina Fernandes (ao lado), colunista do The Intercept (na foto acima, Yuval Vagdani, soldado israelense de 21 anos do 432º Batalhão das Brigadas Givati, acusado de crimes de guerra, que passeava em praias brasileiras):

No artigo de março para o Intercept Brasil, mergulhei no contexto dos israelenses que, após cumprirem suas funções no genocídio em Gaza e na ocupação e limpeza étnica na Palestina, saem de férias, chegam no Brasil e ocupam praias e estabelecimentos com total certeza de impunidade.

O estado de Israel e suas lideranças estão na mira de acusações de crimes de guerra e contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional, mas não há quase nenhum avanço na responsabilização.

O problema é que o direito internacional tem sido desrespeitado não somente pelos mandantes de guerra, como Netanyahu, Trump e Putin.

Países onde se enche a boca para falar de respeito à soberania, seja o Brasil ou a França, também riem na cara de suas obrigações frente ao direito internacional ao normalizar absurdos e resumir sua postura a palavras e declarações em redes sociais.

Mas não é normal que uma escola seja bombardeada, assassinando cerca de 150 crianças e adultos e ferindo outras 100. Não é normal que uma operação de guerra seja retratada por um presidente como se fosse uma mera jogada de videogame.

É nada normal que um estado emita avisos de evacuação para bairros inteiros de outro país, com pouca antecedência, e se espere que povos civis e inocentes simplesmente aceitem a perda de suas residências, pertences, e vidas inteiras. Nada disso é normal, mas está normalizado.

Se guerras moldaram a história humana, deixando um legado sombrio do que impérios e colonizadores são capazes de fazer, hoje estamos diante de uma camada ainda maior de banalização dos efeitos de invasões, disputas imperiais e tomada de territórios e recursos. As vidas humanas simplesmente não contam nem mesmo para lamentar a perda de civis ou efeitos colaterais.

Apenas soldados patriotas de exércitos poderosos têm direito a honrarias, mas em regiões desprezadas por racismo e islamofobia, o valor da vida civil é tão baixo, que é comum encontrar cifras em que combatentes oficiais morrem bem menos que pessoas comuns.

No caso do genocídio em Gaza, até dados do exército israelense corroboram isso, onde 83% dos mortos em Gaza são vítimas comuns. Além disso, há a destruição planejada de infraestrutura civil: residências, hospitais, universidades, museus, templos.

Em 2 de março, Israel e Estados Unidos bombardearam o Palácio Golestan, patrimônio da Unesco no Irã, embora a imprensa insista em noticiar na linguagem passiva, no estilo de “palácio sofre danos” ou “bombardeios atingem”. As vítimas não têm direito aos seus nomes, à sua história e nem mesmo à sua cultura.

Não é coincidência que os autores dos principais ataques militares recentes tenham interesses imobiliários nas regiões alvo. Matar a população civil, expulsar quem resta e o uso de bombardeio de saturação (carpet-bombing) cumprem juntos o papel de limpar o terreno para futura ocupação colonial.

Isso está tão normalizado que Trump foi explícito sobre seu “plano de reconstrução de Gaza” e as oportunidades apresentadas para o turismo de resorts e investimento na região.

O turismo pode ser um forte artefato colonial de normalização da tomada de territórios e da ocupação, principalmente o turismo extrativista. O termo é interessante, porque remete ao sistema de mineração que extrai valor enquanto possível e depois deixa os danos para a população local.

É sobre atrair capital, usar recursos e usufruir do espaço a partir de estruturas de poder que reforçam desigualdades e impunidade.

Em um mundo em guerra constante – genocídios, guerras inter-imperiais, guerras civis, e o uso da violência estatal contra o próprio povo – o que é frequente se torna apenas mais um detalhe nas atualizações diárias de notícias de quem não está na mira do fogo.

Parece apenas um incômodo em planos de viagem, um obstáculo logístico em trâmites comerciais, ou uma preocupação passageira. O direito à paz é seletivo, assim como o direito à própria humanidade.

Por isso, embora cansativo e desanimador, não podemos evitar o conhecimento sobre o que há de mau e terrível no mundo. Esse conhecimento pesa, mas enquanto pesar, será um impedimento à normalização completa de tanta morte de destruição.

É parte de nossa tarefa nos manter informados, aprender a interpretar essas informações e, com sorte, conseguir mobilizar a partir disso para que a paz não seja um desejo inocente e distante e sim objetivo estratégico de nossas ações.

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