Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:
Afinal, o que significa mesmo a sigla MPB e por que ela surgiu de uma hora para outra, contrariando até a lógica de sua tradução? Na verdade, e lembro muito bem disso, o termo começou a ser usado largamente em meados dos anos 1960; a Bossa Nova já diminuía a sua chama, e estava chegando para nós o Rock’n’roll, representado pelos Beatles, Rolling Stones, Elvis Presley e outras estrelas internacionais, influenciando o surgimento de um estilo musical em solo brasileiro – o Iê, Iê, Iê – o que, a rigor, era um jeito próprio de tocarmos e cantarmos aquela música estrangeira.
Apareceram cantores e compositores para o novo estilo: Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Ronnie Von, Wanderleia, Martinha, Rosemeire, as bandas Renato e Seus Blue Caps, Os Incríveis, Golden Boys e The Fevers, todos cantando muitas versões de “hits” britânicos e americanos.
Ao mesmo tempo, entrava também em cena outra vertente da música nacional, influenciada fortemente pela Bossa Nova, com um sentimento de nacionalismo e preservação da nossa cultura, liderada pelos cantores/compositores Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo, Milton Nascimento, Geraldo Vandré, Paulinho da Viola, Sidney Miller, Nara Leão, Gal Costa, Maria Betânia, Elis Regina e os grupos MPB4 e Quarteto Novo, com um estilo que ainda não tinha denominação própria; não era Samba, Bossa Nova e nem Iê, Iê, Iê. Foi aí que o termo MPB foi adotado para fazer a distinção.
Chegou também a Tropicália, em 1967/68, com uma proposta meio dissidente da MPB, liderada por Caetano, Gilberto Gil, Torquato Neto, Tom Zé e Gal Costa, pretendendo misturar tudo, romper com alguns rótulos e preconceitos entre os estilos musicais.
Os apreciadores do Iê, Iê, Iê não gostavam da MPB, pois a achavam um estilo ultrapassado, com melodias de ritmo lento e monótono. Chegavam a taxá-la de cafona. Não “fazia a cabeça” dos garotos cabelos longos, que amavam os Beatles e os Rolling Stones.
A recém nomeada MPB, era um movimento de resistência à forte influência, quase invasão, que as culturas musicais britânica e americana exerciam naquele momento. As emissoras de rádio foram cedendo maiores espaços para sua divulgação, em detrimento da música nacional; criou-se um clima de guerra entre as duas “facções”.
Houve até uma, célebre ou fatídica?, “passeata contra a guitarra”, porque o instrumento era um símbolo do estrangeirismo que nos “invadia” e a MPB não tolerava “desaforos”. Aqui pra nós, uma grande bobagem que em nada repercutiu e chegou a envergonhar alguns protagonistas da empreitada, que hoje escondem o rosto quando o tema vem à tona.
Os festivais de música dos anos 1960 também foram determinantes para a solidificação da sigla, pois geralmente o título era bem explícito: Festival da Música Popular Brasileira, já deixando claro que o estilo “americanizado” não era bem-vindo pela identificação direta com a cultura musical estrangeira.
Mas há uma figura da Bossa Nova que foi a influência determinante no surgimento da geração MPB – João Gilberto –, pelo fascínio que despertou com sua maneira muito própria de cantar e tocar violão, rompendo totalmente com os padrões concebidos até meados dos anos 1950. A forma intimista de suas interpretações, com a voz geralmente em tom baixo, harmonia moderna, acordes antes não utilizados na música brasileira, despertou uma paixão coletiva nos jovens iniciantes.
Hoje, MPB significa a música que é produzida no Brasil. Sem a estratificação que, ao meu ver, serviu apenas para uma época. O tempo se encarregou de tornar o sentido do termo mais acolhedor, livre de segregações preconceituosas.


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