The Intercept: “Secretário de Educação de Zema repete prática e contrata empresa investigada por fraude”

Por Thalys Alcântara, jornalista, no The Intercept:

Se você leu minha matéria ontem no site do Intercept Brasil sabe que eu publiquei uma denúncia sobre milhões que o governo de Romeu Zema, do Novo de Minas Gerais, pagou para uma empresa investigada por fraude no Rio Grande do Sul.

A história é mais ampla, envolve diferentes governos e empresas. Por isso, eu e meus colegas do Intercept Brasil estamos investigando desde o ano passado. Como nem tudo cabe no espaço da reportagem, vou contar algumas coisas aqui na newsletter.

Uma professora da rede estadual me relatou que ela e seus colegas foram surpreendidos no começo deste ano com livros didáticos de reforço para matemática e língua portuguesa comprados no apagar das luzes de 2025 na gestão do secretário de Educação do governo Zema, Rossieli Soares. O problema? O roteiro é quase idêntico ao que ele executou no Pará.

No total, foram adquiridos cerca de cinco milhões de livros em contratos que somam R$ 848,8 milhões. Todos os contratos são com a empresa Fazer Educação, antiga Sudu Tecnologia, cujo dono foi indiciado por fraude em licitação e organização criminosa pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul.

Durante a apuração da reportagem, eu descobri que a maioria dos contratos foram feitos a partir de um mecanismo da administração chamado de adesão à ata de registro de preço, que é um tipo de contratação baseado em uma licitação que já ocorreu em outro órgão público, com o objetivo de acelerar o processo.

O rastro de contratos de Belém a Belo Horizonte

O que todos esses materiais didáticos possuem em comum, além de terem sido adquiridos de uma mesma distribuidora acusada de envolvimento em um esquema de fraude em licitação? São todos materiais da Somos Educação. 

Como o Intercept já vem mostrando desde o ano passado, em reportagem do Adriano Wilkson e Alan Bordallo, o empresário ligado à Somos Educação, Mário Ghio Júnior, doou para a campanha de Rossieli, quando ele foi candidato a deputado federal pelo PSDB em 2022.

A Somos Educação é uma empresa bilionária que faz parte do maior grupo de educação privada da América Latina: a Cogna Educação.

Para se ter uma noção, o capital social da principal holding da Cogna Educação, que tem sede em Belo Horizonte, é de R$ 8,3 bilhões. A Cogna é dona de mais de 60 marcas, entre universidades, editoras, escolas e uma plataforma de vendas.

Doações de campanha e o lucro dos gigantes

Uma das subsidiárias da Cogna, a Vasta Platform Limited, onde o doador da campanha do Rossieli teve cargos de chefia entre 2020 e 2025, funciona no edifício Ugland House, que fica de frente para o mar do Caribe em Georgetown, capital das Ilhas Cayman.

Me surpreendi quando fui pesquisar e descobri que esse mesmo prédio foi diretamente mencionado pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, por abrigar mais de 18 mil empresas. “Ou esse é o maior prédio do mundo, ou é o maior escândalo fiscal do mundo”, declarou o democrata em 2009.

Importante pontuar que, simplesmente ter a empresa sediada nas Ilhas Cayman ou no Ugland House, não é sinal de evasão fiscal ou corrupção.  A ilha é comumente usada por grandes empresas para facilitar fluxos financeiros globais. No entanto, isso ilustra o poder mundial de um grupo como a Cogna Educação, e que se beneficia indiretamente de contratos públicos que beiram R$ 1 bilhão no intervalo de três anos.

A Cogna defende seus interesses com afinco junto ao poder público. Dados coletados da Agenda Transparente da Fiquem Sabendo mostram que, só no ano passado, o diretor de relações institucionais da Cogna, Juliano Griebeler, participou de oito reuniões no Ministério da Educação. Isso sem contar outros sete encontros no órgão que ele atuou como representante da Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) ou apenas como agente privado.

A reportagem que publiquei essa semana vai a fundo nessa história, e mostra que a distribuidora que vende os livros da Somos Educação para as secretarias administradas por Rossieli Soares é apontada como integrante de um esquema de fraude em licitação na prefeitura de Porto Alegre. O dono da distribuidora, o empresário amazonense João Moacir Pereira da Silva Filho foi indiciado por organização criminosa e fraude em compras públicas.

Empresas suspeitas de crimes contra a administração pública continuam a assinar contratos públicos normalmente, e faz parte da função do jornalismo ficar de olho nessas compras.

Você acredita que o ‘modelo Rossieli’ de gestão escolar é um caso isolado em Minas Gerais ou é o reflexo de como a educação básica vem sendo tratada em todo o país?

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