A exposição fotográfica e a série audiovisual “Manzuá – Entra mas não sai”, dedicados ao universo da pesca artesanal da lagosta em Icapuí (CE), chegam à Casa de Cultura Cores da Vida e ao Centro de Memória Popular Chico Bagre hoje e amanhã, 15 e 16 de outubro, sempre às 19h. A programação é gratuita e inclui oficinas gratuitas de fotografia e vídeo para a comunidade e os estudantes da rede pública de ensino. Com registros assinados por Sérgio Carvalho e três vídeos produzidos por Tibico Brasil, o projeto foi lançado no último sábado (10.10), na Praia da Redonda, em Icapuí, e agora expande sua programação no município.
As inscrições para as oficinas acontecem presencialmente, por ordem de chegada. O objetivo é despertar o interesse pela produção artística e audiovisual, promovendo a inclusão social e a participação ativa da comunidade local em suas ações. Vale destacar que os eventos e as atividades formativas contam com intérprete de libras.
Além de proporcionar uma formação inicial técnica em fotografia e vídeo, as atividades buscam estimular uma percepção mais consciente sobre o território em que vivem. Dessa forma, as oficinas unem a valorização das tradições culturais e o incentivo à preservação ambiental ao desenvolvimento da arte e da cultura local.
Projeto Manzuá
Por meio da fotografia e do audiovisual, o projeto acompanha os pescadores, seus modos de trabalho, a construção dos manzuás, os preparativos em terra, a saída para o mar e a espera pelo retorno. Mais do que documentar uma atividade econômica, o projeto registra uma cultura construída historicamente na relação entre homens, mar, trabalho e natureza, que hoje passa por profundas transformações.
O objetivo do projeto é dar visibilidade à paisagem humana, cultural e natural das comunidades de Icapuí que vivem da pesca artesanal, valorizando os pescadores e pescadoras, seus saberes e seus artefatos tradicionais, especialmente o manzuá. Além disso, procura refletir sobre as transformações da pesca, as mudanças sociais e ambientais do território e a necessidade de preservar conhecimentos transmitidos entre gerações.
O projeto Manzuá integra a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB), sendo realizado pelo Governo do Brasil, por meio do Ministério da Cultura, com o apoio do Governo do Estado do Ceará, por meio da Secretaria da Cultura (Secult Ceará), tendo sido contemplado pelo 14º Edital Ceará das Artes – Categoria Fotografia. Conta ainda com o apoio da AQUASIS, da Associação Preserve Peroba e Picos e da Casa de Cultura Cores da Vida.
Trabalho, memória coletiva e cultura
Na exposição, o manzuá surge entre corpos e rostos dos pescadores, suas mãos, ferramentas, embarcações, gestos do trabalho e paisagens marítimas e costeiras de Icapuí. O próprio mar assume forte presença visual e simbólica nas fotografias de Sérgio Carvalho, evidenciadas pela expografia de Marcus Braga.
O manzuá, dispositivo que intitula o projeto, deixa de ser apenas a armadilha utilizada na captura da lagosta. “Manzuá constrói menos um inventário da pesca artesanal do que uma cartografia afetiva de seus gestos, vestígios e permanências. A armadilha que dá nome ao projeto torna-se metáfora de uma memória coletiva: feita de madeira, rede, mãos e experiência, guarda conhecimentos transmitidos através das gerações. Antes de ser armadilha, o manzuá é conhecimento; antes de ser pesca, é trabalho; antes de ser trabalho, é memória; e, antes de tudo isso, é vida”, explica a curadora, Vanessa Ramos.
Vencedor de importantes prêmios e com passagens por grandes festivais, Sérgio destaca o caráter humanista do trabalho. “Fotografar Manzuá é, antes de tudo, aproximar-se. É compreender que não estou apenas diante de uma atividade de pesca, mas de homens e mulheres que construíram uma forma de existir profundamente ligada ao mar. Procuro chegar perto dos seus rostos, mãos, ferramentas e gestos, não para transformar suas vidas em algo exótico, mas para reconhecer a dignidade do trabalho e a memória que existe em cada um desses gestos. Fotografar essa comunidade é também escutar e compreender antes de representar”, detalha.
Entra mas não sai
Os três vídeos da série Entra Mas Não Sai, sob a direção e concepção do diretor e produtor audiovisual Tibico Brasil (foto abaixo) acompanham os bastidores e os dispositivos de aproximação utilizados por Sérgio Carvalho na construção do ensaio fotográfico Manzuá. Os vídeos utilizam esse processo como caminho para entrar no universo dos próprios pescadores, além de ampliar o registro ao agregar depoimentos deles.

“O título parte do princípio do próprio manzuá: uma armadilha construída para permitir a entrada da lagosta e dificultar sua saída. Na série, essa ideia ganha outro sentido ao se relacionar com homens que começaram muito cedo na pesca e permaneceram ligados a esse universo durante toda a vida”, explica Tibico.
As imagens revelam o ciclo da pesca artesanal da lagosta e procuram registrar alguns de seus momentos mais representativos. A narrativa começa ainda em terra, com a preparação e a pintura dos botes, a confecção dos manzuás e a organização dos equipamentos, e segue até a saída para o mar, o lançamento das armadilhas e a espera pela captura. Um dos momentos centrais é a abertura da temporada da lagosta, quando os pescadores saem juntos para o mar em uma espécie de procissão de embarcações em busca daquele que durante muito tempo foi considerado o “ouro do mar”.
Para o diretor, “registrar a pesca artesanal é acompanhar um tempo diferente, marcado pela preparação, pela partida, pelo movimento do mar e pela espera. O audiovisual permite aproximar o público desse ritmo, das paisagens e das transformações vividas por essas comunidades. Nosso desafio é fazer com que imagem, movimento, som e palavra ajudem a preservar a memória desse universo.”


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