Por Ronaldo Caminha, economista, músico e estudioso da arte e da cultura brasileiras – o autor escreve sempre aos sábados sobre música, artistas e histórias:
Quando ouço uma música e me identifico, por razões as mais diversas, essa fica gravada na memória e de vez em quando vem à lembrança. Às vezes, nos primeiros momentos da manhã, ao despertar e ainda na cama, ela aparece sem nenhuma explicação, sem estímulos visuais ou auditivos, do nada. Por que será? Já tentei associar essas ocorrências a um sonho que por ventura tenha tido naquela noite, mas nunca encontrei lógica e, interessante, a música fica se repetindo silenciosa e mentalmente em vários momentos do dia, involuntariamente. De repente me pego cantarolando, baixinho, aquela musiquinha renitente no meio do trabalho, caminhando na rua e até em momentos impróprios, que não caberia se cantar, lá vem numa missa solene ou num velório; aí tento me corrigir.
Resolvi fazer essa revelação, quem sabe encontro alguém que “sofre” essas mesmas aparições e, também, sem entender as causas. Só sei que é muito bom, e já desisti de tentar decifrá-las. Vão acontecendo com muita frequência e, interessante, quase nunca se repetem. E como a música tem esse poder de nos transportar no tempo, essas “crises” me levam a lugares distantes e a lembranças vagas da existência, nem sempre boas e algumas até desagradáveis, mas como é algo involuntário, o racional passa longe, simplesmente acontece e ponto.
Outro dia me veio uma do Chico Buarque – “Até Pensei” – que a letra contém alguns elementos que fizeram parte da minha infância, na Rua Padre Mororó, em Fortaleza, onde nasci e morei até aos 12 anos de idade. Um casarão em estilo colonial, dentro de um terreno com extensão de quase uma quadra, repleto de fruteiras de várias espécies, habitado por três velhinhas e um empregado que cuidava da conservação.
As frutas eram abundantes, caiam no chão e as donas nem viam, nem davam conta daquela fartura tão próxima.
“Junto a minha rua havia um bosque,
Que um muro alto proibia,
Lá todo balão caia,
Toda maçã nascia,
E o dono do bosque nem via…”
“Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
A dona dos olhos nem via…”
A metáfora Buarqueana passou longe do meu entendimento infantil, e aquelas imagens poéticas me encantavam de um outro lado da imaginação, que não era exatamente o do autor. Depois, um pouco mais amadurecido, percebi o verdadeiro sentido; a mensagem era para a mulher amada que morava juntinho e, a exemplo do dono do bosque, que não dava conta dos balões que caiam e das maçãs que nasciam, a sua musa, dona dos olhos claros como o dia, também não percebia a paixão que despertava, e as modinhas que tentavam chamar-lhe atenção.
Na verdade, a mensagem contida numa canção, numa poesia ou num romance, está aberta a diversas interpretações que, muitas vezes, são totalmente diferentes da intenção do compositor ou escritor, ficando livre o espaço para a imaginação de cada ouvinte ou leitor.
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Há também aquela música que chega vez por outra, que nem é aquela com a qual tenho alguma simpatia; mas entra como uma visita inconveniente; tomam lugar, se abancam e ainda pedem um cafezinho.
Já me ocorreu de ser aquela melodia chata que, de tanto tocar no rádio ou no autofalante da quermesse, ficou ali, meio adormecida na memória; reaparece, me faz cantarolar e questionar: porque é que eu estou cantando isso, se eu nem gosto?
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Assim, de vez em quando, se apresentam algumas do Waldick Soriano, Reginaldo Rossi e Genival Santos; não dá para fechar-lhes a porta e, quando dou por mim, já estou cantando…
“Eu não sou cachorro não,
Pra viver tão humilhado…”
(Trecho de “Eu não sou Cachorro não” – Waldick Soriano)
“Garçom,
Aqui, nessa mesa de bar,
Você já cansou de escutar,
Centenas de casos de amor…”
(Trecho da Música “Garçom” – Reginaldo Rossi)
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“Se errar uma vez,
Dou castigo,
Para não se acostumar,
Se errar outra vez,
Mando embora,
Pra saber me respeitar…”
(Trecho da música “Se errar outra vez” – Genival Santos)
É mesmo algo incontrolável, involuntário; surge repentinamente. Some sem que me dê conta. Desaparece por um tempo. Depois volta e isso é muito bom.




