A Crônica do Edmilson Maia Jr.: “Educação infantil”

Por Edmilson Maia Jr., professor universitário, historiador e escritor:

– O Bolsonaro vai acabar com o Brasil, e o vô Lula dá dinheiro para nós, tio!
– Mas menina! A sua família não é toda Bolsonaro, lá da Igreja do Deus é Temor, Belinha? Que história é essa? De onde tirou isso, criança? Esse assunto do nada.
– Não importa, tio Mar! O Bolsonaro é miliciano, não pode ganhar não.
– Tá bom, Belinha. Isso é a democracia! Agora vamos continuar aqui a
atividade. – Marx ficou com receio da salinha incendiar com os pequenos de cinco a
seis anos discutindo política e, mais ainda, temeu as famílias o acusarem de doutrinador.

Já bastavam as polêmicas com o seu nome nas entrevistas de emprego…

Foi quando a sala quase pegou fogo por outro motivo, quando os irmãos José e João voltaram falando baixinho no ouvido dele, ao chegarem do banheiro:

– Tio Mar, tio Mar, tem um pinto pintado na parede do banheiro!

“De onde tiram essas conversas?”, meditou rapidamente e sussurrou ligeiro para não assustar o resto da turminha e principalmente as meninas:

– Vocês nunca viram um pênis, meninos?
– Só o do papai… O senhor sabe por que ele tem um pintão? – os dois gêmeos
responderam.
– Vão sentar que vamos fazer uma leitura todo mundo agora – cortou logo Marx.
– Tio, não trouxe o livrinho porque a gente se mudou essa semana – disse
Beatriz.
– Ah, foi? Que bacana Bia! Para uma casa melhor? Mais espaçosa e no centro?
– Não, tio. Meu pai e minha mãe se separaram, ela deixou ele. Mudamos para Vó.
– Quem sabe eles não voltam, meu bem. Todo casal tem essas crises.
– Voltam não, Tio Mar. Ela passa o dia mandando áudio para ele esculhambando.
– Poxa, Beatriz…

– Tio, papai deixou mamãe pra se juntar com outro homem – interrompeu o Cirilo.
– E foi? – Marx tentou ser rápido, de novo, percebendo que as criancinhas ficaram caladas pensando no que fazer.

Eduardo rompeu o silêncio e disse do alto dos seus seis aninhos:
– Por isso que eu gosto quando meu pai vai me buscar para passear no carro dele nos fins de semana: ele leva sempre no mínimo umas oito raparigas com a gente no carrão.
– Dudu!!! – Marx quase teve um treco.

Deu graças a Deus que a sirene tocou para a hora do lanche e recreio.

Belinha comandou a gurizada aos berros, pulos, todo mundo fazendo pose de
estátua, caretas e o “L” nos dedos da mão direita para frente, na hora do grito de guerra:

– “Quem ficar parado é petista disfarçado!”

*** ***

Edmilson Alves Maia Júnior (foto) nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG.

Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, instituição na qual é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc.

Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.

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