
Por Ana Márcia Diógenes, jornalista, professora e escritora:
— Mãe, o espírito santo caiu.
— Como é ? Caiu o quê?
— O espírito santo, mãe, eu perdi.
— Você quebrou algum santo da minha mesinha?
— Ele caiu e não encontro mais.
A conversa rápida e inusitada entre mãe e filho pequeno foi verdadeira. Ouvi numa clínica e, assim como você que me lê, fiquei curiosa em saber o que seria um espírito santo caído e perdido. Descobri que a criança estava montando um quebra-cabeça do mapa do Brasil e, na ansiedade de concluir, havia derrubado a peça do estado do Espírito Santo e não conseguia encontrar.
O diálogo me trouxe para a política, até porque tem sido difícil sair dela nos últimos meses. A mãe desta história comentou, rindo, que só conseguiu entender o que o filho dizia quando buscou imaginar, no universo da criança, a que ele poderia estar se referindo. Ou seja, ela se esforçou para ir até o outro e assim tentar compreendê-lo.
Onde quero chegar? Nós, brasileiros, parecemos estar vivendo realidades diferentes a partir do candidato em que votamos para presidente. A realidade, porém, é única. Caminhamos em uma só trajetória e ela é distinta da ideologia política do voto. Para uma caminhada mais leve, é fundamental nos dar ao trabalho de conhecer os argumentos uns dos outros.
Entre a peça do quebra-cabeça que se perde e tem o mesmo nome de uma entidade católica e também de um estado; entre as fakes news que deturpam compreensões, entre grupos de WhatsApp que fazem lavagem cerebral, estão seres humanos.

Podemos e devemos voltar a conviver com mais aceitação, mas os bloqueios da individualidade necessitam ser rompidos. Que tal um exército para a escuta do outro?




