- O mundo inteiro – isso não é exagero, avisamos logo – será coberto a partir de hoje por uma avalanche descomunal. É a Copa do Mundo de futebol masculino, que, independentemente de violências entre governos, golpes, insatisfações populares, eleições e tenebrosas transações, será realizada na 23ª edição. Pela primeira vez em três países, México, Canadá e Estados Unidos, a Copa da Fifa envolverá 48 equipes. Não é um evento ruim, pelo menos em essência: mexe com emoções, movimenta dinheiro e estimula economias, agrega valores sociais aos cidadãos e infraestrutura às cidades. Até aí, ok. Mas o que já se viu não foi nada parecido com a enxurrada de jogatina virtual que vem por aí. Quer testar? Experimente passar 15 míseros minutinhos à frente da TV. O que se descortinará aos seus olhos será um desfile de bets – como se chamam as empresas de apostas – à cata de dinheiro de quem acredita em sorte, de quem tem esperanças no acaso. Estarão nas TVs e na Internet sempre prometendo “diversão”, “alegria” e “reponsabilidade”. É tudo conversa mole. Já num mundo subterrâneo estarão à espreita também negócios ilegais que prometem ganhos e prosperidade em ambientes pobres. Haverá facções em cena. Anote: enquanto alguns encherão as burras de dinheiro alheio, incautos serão depenados. O poder público sabe disso, mas não dá a menor bola.
Unidos vencerão
Quase ao mesmo tempo em que começa a Copa, donos de cassinos virtuais já se articularam num certo “Instituto Brasileiro de Jogo Responsável”. Chama-se Carlos Lima o executivo que tomará conta da entidade. O IBJR diz que o gestor tem “ampla experiência em relações governamentais, advocacy (assim mesmo, em inglês) e construção de políticas públicas” – seja lá o que isso signifique.
Lobby
O tal Instituto de Jogo Responsável é, na verdade, um birô de lobby. Diz o texto de apresentação que a missão do comando da entidade é “fortalecer o diálogo técnico e institucional com o Governo Federal, o Congresso Nacional, órgãos reguladores e a sociedade civil”. Ah, tá!
Lembrou?
E a citada “sociedade civil”, apesar dos estragos que as bets já estão causando ao juízo, à saúde e às finanças das famílias, que lembre: o crescimento da jogatina se deve ao arremedo que foi o governo de Michel Temer. O que se fez naquele período explica muito bem as razões do golpe que se deu contra a gestão de Dilma Rousseff.
No ar

Um vídeo reunindo artistas como Gilberto Gil (foto acima), Caetano Veloso, Chico Buarque, Camila Pitanga e Marieta Severo, entre outros, faz um alerta nas redes sociais: bloqueie o “tigrinho”, fazendo referência à mais conhecida modalidade de jogo virtual. É uma manifestação válida, mas, para alguns, incompleta.
É droga
O empresário Eduardo Moreira (foto abaixo), articulador do Instituto Conhecimento Liberta e ex-profissional do setor bancário, avalia que a mobilização dos artistas ainda pode ser insuficiente diante dos riscos. Segundo ele, a jogatina deveria ser tratada pelos governos como o cigarro e a bebida – para começar, sem publicidade. E o adicto poderia ser tratado como doente.

Tonelada
Nada mais do que 43 projetos de deputados começaram a tramitar nesta semana na Assembleia Legislativa do Ceará. Nenhum diz respeito à epidemia de jogos, que provavelmente deve se intensificar nos dias de Copa do Mundo.
Poder local
A Câmara Municipal de Fortaleza já deu alguns passos no sentido de discutir o problema e de buscar soluções, pelo menos no limitado alcance que tem. Movimentos do vereador Benigno Jr. (Rep) levaram o vício em jogos para a pauta política. Falta agora que a coragem de enfrentar a doença ganhe mais espaços.


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