Extrema-direita quer transformar o Brasil numa aberração excludente como Balneário Camboriú

Sabrina Fernandes: É uma contradição seguir investindo no pré-salNo site The Intercept, por Sabrina Fernandes:

Regiões de interesse da especulação imobiliária estão na mira de prefeituras e governos estaduais em todo o país. Como expliquei no artigo da coluna de junho no Intercept Brasil, há necessidade e oportunidade de revitalizar áreas abandonadas pelo poder público para ofertar moradia social de qualidade, democratizar o comércio, facilitar o ir e vir da população e promover adaptação climática essencial.

Porém, o que vemos é justamente o contrário. Os interesses de mercado têm mandado nos planos de revitalização e modernização urbana, reforçando o modelo de cidade excludente, insustentável e capitalista que já conhecemos.

Esses projetos me lembram a cidade catarinense Balneário Camboriú, cujo contexto urbano representa o sentido de crescimento insustentável e dominado pelas construtoras. A bolha imobiliária da cidade ainda não deu sinais de enfraquecimento; pelo contrário, a cidade lidera o ranking do metro quadrado mais caro do país.

Cidades vizinhas como Itapema e Itajaí também estão no Top 5 dos imóveis caríssimos e isso é tratado por aí como boa coisa. Portais de investidores e a grande imprensa periodicamente se referem ao encarecimento como “valorização” e posicionamento de Balneário Camboriú como “polo de imóveis de alto padrão”. Falam da região como uma Dubai brasileira, como se isso fosse coisa boa pra todo mundo e pra natureza.

Investidores lucrando, famílias sendo expulsas

Essa visão revela o quanto a ideia do imóvel urbano no Brasil é moldada como investimento e não como construção de cidades democráticas e convidativas. Ora, se para o investidor a valorização dos imóveis em uma área apresenta a oportunidade de crescer seu patrimônio e vendê-lo ainda mais caro no futuro, como funciona a lógica para pessoas que moram de aluguel?

Além de enfrentarem o desafio de imóveis cada vez mais caros, com cenário de financiamento desfavorável, também sofrem com as incertezas do próprio mercado de alugueis, o qual já é inóspito o suficiente para empurrar famílias inteiras para bairros cada vez mais afastados.

O resultado é um desenraizamento profundo da população, que não consegue mais fazer do seu lugar de morada também seu lugar de comunidade e organização política. Isso, por si só, já é um grande bônus para empresários e políticos de direita que planejam transformar cada metro e quarteirão das cidades em propriedade privada – até mesmo quando ela continua pública no papel.

A  verticalização estrondosa de Balneário Camboriú chama a atenção pelos anúncios  ao longo dos anos de um novo arranha-céu que será o mais alto do país. Em  breve, será a Torre Senna, projeto da FG Empreendimentos e a Marca Senna (sim,  da família de Ayrton Senna) a bater o recorde de torre residencial mais alta do  mundo, com mais de 500 metros de altura e apresentando “18 mansões  suspensas”.

O  que tanto prédio altíssimo com mais moradores, turistas e escritórios  representa de fardo na infraestrutura básica, na distribuição do espaço e no  trânsito já congestionado é lido como oportunidade e razão para celebrar – ao  menos para figuras como Luciano Hang.

Para o velho da Havan – que também está por trás da Torre Senna – tanto investimento em construção civil só pode significar progresso e desenvolvimento urbano. “Nem o céu” seria o limite para Balneário Camboriú.O poder público realmente não limita a altura e quantidade de andares no entorno da Avenida Atlântica.

A contrapartida se dá, em tese, através de outorga onerosa. Isso quer dizer: você paga mais para construir mais alto e a prefeitura arrecada mais. O objetivo seria munir os cofres públicos com dinheiro para grandes melhorias para a população.

Mas ficam as perguntas: o quanto do que é arrecadado é investido justamente para tentar compensar os impactos desse tipo de verticalização? Numa área horizontal tão pequena, mas um cenário vertical cada vez mais ousado, a capacidade da infraestrutura é limitada, mesmo que a altura das torres não seja. Além do mais, num mercado voltado para investidores estrangeiros e super-ricos, como Neymar e seu quadriplex de R$ 60 milhões, quem realmente se beneficia desse modelo de cidade?

Será que normalizamos de vez as cidades segregadas no Brasil? Se quiser entender mais e conhecer mais exemplos, leia meu artigo de maio no site.

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