A Crônica do Edmilson Maia Jr.: “Coletivo”

Por Edmilson Maia Jr., professor universitário, historiador e escritor:

Sonolenta das últimas aulas na Escola, despertei com o som alto do áudio da senhora esparramada na cadeira vizinha:
– Como é que pode essa carniça ter sido reeleita, mulher? Não fez nada, o Estado todo acabado. O povo não sabe votar, vão ser quatro anos de novo na pêia. Mas falta pouco para gente tirar a outra carniça!”

– As bestas do grupo ficam me chamando de pobre de direita. Só falam que o tal de “cabeça branca” vai acabar a escala 6 por 1. É gente que não busca se informar.”

Frenética, ela gravou foi ligeiro outro áudio, ouvindo-se em seguida novamente:
– Queria sim folgar dois dias! Passear com o Jukito, cuidar da horta, fazer sopão de novo para os crakudos no Centro, dormir até tarde um dia… Queria um céu azul desses! Mas o patrão vai ter que demitir, vi num programa. Não posso perder esse emprego!

Fez uma pausa para pigarrear e tome dedada na tecla do microfone verde:

– E vive tudo de auxílio do Governo. Nenhuma do grupo rala, nenhuma é CLT que nem eu. Jogar uma Carteira de Trabalho no meio, fogem. Ontem, na apuração, estavam tudo chorando. Deixa chorar, se for chorar faz que nem eu: manda áudio, bebê!

Gargalhou até tossir, acordando outros passageiros. Acudi:
– Senhora, tudo bem?
– Sim, tudo bem, já passou.

Recuperada, emendou:
– Mulher, mudando de pau pra cacete: está sabendo que me divorciei do Salomão, né? Aguentei demais. A última dele foi fazer um menino na babá do Jukito quando eu ia pro batente. O pastor pediu de novo para eu não separar. Bem doido.

– Fiquei desigrejada, olhavam torto. A Rebeca arrumou Congregação pra gente do outro lado da pista. Receberam a gente de braços abertos, mas o pastor de lá falava coisas do tal de Lennon, de um tal de Gandhi. Corremos foi pra Igreja três quarteirões à frente: a Deus é Temor. O Gabriel que virou desviado e vota no Véi. Acredita nisso? Eu e Rebeca brigamos direto com ele!

De repente, ela me olhou arregalada – notou a estrela vermelha no peito?
– Você vai descer logo?
– Sim, desço na próxima Estação.
– Quando chegar perto levanto e tiro o saco aqui do meio do chão.

Ficou em pé no corredor, quase caindo para ceder espaço a multidão que descia.
– Sente aí nessa cadeira da ponta, senhora. Não há motivo para pressa.
– Você vai já sair, você vai sair é agora, pera aí.

Veio e ficou com a sacola enganchada, entre as cadeiras, puxando sem resultado.
– Quer ajuda?
– Não precisa, não precisa. Pronto, pode ir. Vá simbora! Vá com Deus!
– Obrigado, senhora!

Fui sem olhar para trás. Ainda ouvi outro fragmento de áudio:

– Sim, Gabriel está de caixa no supermercado e à noite vai para tal da Faculdade.

*** ***

Edmilson Alves Maia Júnior (foto) nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG.

Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, instituição na qual é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc.

Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.

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