A crônica do Edmilson Maia Jr.: “Cruzes e desejos no cemitério de dragões”

Nalgum futuro qualquer, o idoso tutor foi com a perna e o braço remanescentes à janela. Rememorou o espetáculo de ódio ocorrido na madrugada na Praça defronte: a cruz cinza com o jovem pendurado. Desportistas exercitaram-se diante o cadáver esquartejado ao amanhecer. Os membros incendiados um em cada canto. Carcaças em chamas alumiaram a passagem de boêmios felizes rumo a restaurantes e cafés deslumbrantes.

Vinha-lhe à mente, de maneira incessante, cenas do “filme” da terrível alvorada. Veículos de dois andares, paredões de som trovejavam hinos de estupro. Gente rebolava com bíblias virtuais, rosários rodados no ar. Davam salvas de metralhadoras, pistolas, fuzis simulando crucifixos, para o alto. Multidões rejubilavam sempre as cerimônias de crucificações. Xingavam, oravam em êxtase. Proferiam línguas estranhas, dedos e pernas trêmulas, delirantes. Gozos e salivas jorravam por ruas e corpos, celebrando as carnes entregues aos pregos e estacas, mastigadas nas madeiras, carcomidas pela fricção.

O calvário do seu ex-aluno terminara ali. Todavia, os fatos que o deflagraram aconteceram bem antes. O professor lembrava de Emmannuel, seu orientando brilhante. O professor sabia bem que tempos atrás, na privada, “Manu” desfrutava Saramago no suporte online de infinitas narrativas. Acabou, assim, Bradbury, Graciliano, Machado, Rosa, Camus e Dickens; os russos melancólicos, seus psicodramas, e os latino-americanos do Fantástico. Subiu “A Montanha Mágica”. Leu Proust, Joyce e Wolf, Kafka inteiros. De mistérios e crueza em Agatha, Raquel, Lygias, Conceição. Carolina Maria de Jesus! Percorreu estações e itinerários do horror: Poe, Lovecraft, King. Viu “A Sombra do Vento”, tudo de Záfon. “Capitães de Areia”, “Tieta”, “Gabriela”, “Tenda dos Milagres”, Jorge, o Amado, o seduzia. Leu parábolas e fantasias de Úrsula K. Le Guin, Octavia Butler e da Atwood. Soluçara febril, possuído, por “Lavoura Arcaica”. Revoltara-se com Lima, Zola, Brecht e Hugo. Ficou assombrado em edições de “O Colecionador” e “1984”. Emmannuel devorou Cervantes, Shakespeare (no original), Dante e Camões antes dos 23! Incalculáveis obras apreciadas. Até Hegel e Kant, em alemão, “Manu” leu.

Pais, tios o exibiam, aos três anos, casa em casa ou like-chamadas, lendo para espanto geral. O pai ganhou apostas desse jeito. Ainda criança, “Manu” vivia direto com diferentes telas nas mãos, desenvolvera até esse hábito de ler no banheiro, menininho, com quadrinhos, lia em todo canto, toda hora.

Emmannuel sempre leu e digitou obsessivamente em dispositivos conectados 24 horas. Nunca presenciara queda de energia, tudo funcionava sem falhas, nem lapsos. À vento, sol ou átomo, o repertório de máquinas não cessava. Fluxo denso, poço sem fundo nem trégua, monitorado pelo Comitê de Notáveis a serviço dos Países Digitais que garantiam que respeitavam a “privacidade” e o tráfego de dados, que só agiam quando convinha, quando de algum crime de leitura não permitida.

Nesse outro mundo, os piores delitos eram leituras e escritas não online. Não havia livro, papeis, canetas, nem suportes do tipo. Nem Bibliotecas: a última foi descoberta e cremada há décadas. Quaisquer narrativas não virtuais eram expressamente proibidas e punidas com a pena máxima. Conversas, anúncios, receitas, quaisquer textos etc – absolutamente tudo era forjado, escrito, na “onlineridade”. Em oceano infindo de caracteres tecido no fluxo compartilhado em rede, com certos donos, rastreado, volúvel, sem intimidade, nem sigilo. Tal qual fora aceito, consagrado: “Aleluia, irmãos!”

O professor se sentia culpado pela morte de “Manu” por ter lhe passado um livro físico, o “Dom Casmurro”, quando ele calhou a compor a Resistência que começava justamente pelo rito de iniciação de ler sem net, sem rede digital. A Resistência colocava livros de papel em novas mãos. Cada pessoa recebia escondido um exemplar de um livro que havia sobrevivido às noites das longas fogueiras. Os leitores, com os livros em mãos, fugiam do fluxo ditatorial e panóptico. Tempo e (re)fabulação podiam ser espelhados intimamente nas escritas devolvidas às apropriações, leituras criativas imprevistas das pessoas sem a conectividade parasitária precarizante sentinela que tudo sabia e vigiava.

Recordando daquela noite da crucificação, o professor sofria amargamente pela prisão e execução de Emmannuel, de tê-lo levado para a Resistência. De ter influenciado ele e tantos e tantas com ideias que viram no texto “O que é Dialética?”, de Leandro Konder, por exemplo. Quando discutiram que a ideia de que o conhecimento e a leitura não consistem em gerar cachorrinhos adestrados, que a consciência crítica almeja gestar sementes de dragões a cuspirem fogo por justiça social e respeito à diversidade vida afora.

Teria valido a pena? A angústia, como nunca, corroía-lo a alma em pedaços…

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Edmilson Alves Maia Júnior (foto) nasceu em 1977, em Fortaleza (CE), onde morou até o início dos anos 2000. Foi professor substituto nos cursos de História da Uece e UFC. É professor do Curso de História da Universidade Estadual do Ceará desde 2008, na cidade de Quixadá, na Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central (Feclesc), e doutor em História pela UFMG.

Mestre e graduado em História pela Universidade Federal do Ceará, instituição na qual é professor do Programa de Pós-Graduação Profissional em Ensino de História. Coordena o Programa de Pós-Graduação em História e Letras da Feclesc.

Tem crônicas e contos publicados em sites e livro físico.

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